O governo federal decidiu antecipar a contratação de usinas térmicas para o próximo ano, movido pelo temor dos efeitos do fenômeno El Niño sobre o sistema elétrico brasileiro. A medida, anunciada nesta quarta-feira pelo Ministério de Minas e Energia, prevê a contratação de 1.500 megawatts (MW) médios de energia térmica, com entrega prevista para janeiro de 2024. A decisão foi tomada após reunião do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), que avaliou como elevado o risco de escassez hídrica nas regiões Sudeste e Centro-Oeste.
Contexto e riscos do El Niño
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, que altera o regime de chuvas em várias partes do mundo. No Brasil, seus impactos mais significativos ocorrem nas regiões Norte e Nordeste, com redução de precipitações, e no Sul, com aumento de chuvas. Para o sistema elétrico, o principal risco é a diminuição da vazão dos rios que alimentam as hidrelétricas, que respondem por cerca de 60% da matriz energética nacional.
De acordo com o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a probabilidade de ocorrência de um El Niño de forte intensidade no segundo semestre de 2023 é de 70%. “Estamos nos preparando para o pior cenário, que seria uma seca prolongada no Sudeste e Centro-Oeste, onde estão os maiores reservatórios do país”, afirmou o diretor-geral do ONS, Luiz Carlos Ciocchi, durante a reunião do CMSE.
Detalhes da contratação
A contratação das térmicas será feita por meio de leilão, com data prevista para setembro de 2023. As usinas selecionadas deverão estar prontas para operar a partir de janeiro de 2024, com contratos de fornecimento de energia por um período de dois anos. O custo estimado da operação é de R$ 2,5 bilhões, que será repassado aos consumidores por meio da bandeira tarifária.
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, destacou que a medida é preventiva e não significa que o país enfrentará racionamento. “Estamos agindo com prudência. Se o El Niño não se confirmar com a intensidade esperada, poderemos cancelar parte das contratações sem prejuízo ao sistema”, explicou Silveira.
Impactos na conta de luz
A contratação de térmicas deve gerar um aumento médio de 3% na conta de luz dos consumidores residenciais em 2024, segundo estimativas da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). O valor pode ser maior ou menor dependendo da evolução do cenário hidrológico e do preço dos combustíveis, como gás natural e carvão, que abastecem as usinas.
Especialistas do setor elétrico avaliam que a medida é necessária, mas criticam a falta de investimentos em fontes renováveis, como solar e eólica, que poderiam reduzir a dependência de térmicas. “O Brasil tem potencial enorme para energia limpa, mas falta planejamento de longo prazo”, afirmou o presidente da Associação Brasileira de Energia Solar (ABSOLAR), Rodrigo Sauaia.
Reações do mercado
A notícia da contratação antecipada de térmicas foi bem recebida pelo mercado financeiro, que vê na medida uma garantia de segurança energética. As ações das empresas de energia térmica, como a Eletrobras e a Engie, registraram alta na Bolsa de Valores nesta quinta-feira. Por outro lado, ambientalistas criticam a decisão, argumentando que ela aumenta as emissões de gases de efeito estufa.
O governo, no entanto, defende que a prioridade é evitar apagões e garantir o crescimento econômico. “Não podemos correr riscos com o fornecimento de energia. O El Niño é uma ameaça real e precisamos estar preparados”, concluiu o ministro Silveira.



