Importação chinesa dobra e provoca guerra de preços no mercado de carros no Brasil
Importação chinesa dobra e provoca guerra de preços no Brasil

O Brasil praticamente dobrou a importação de automóveis vindos da China em 2025. De janeiro a junho, foram cerca de 140 mil emplacamentos de veículos chineses, que se destacam por serem eletrificados, com preços competitivos e economia de combustível. Esse movimento gerou um efeito-dominó nos preços do mercado de automóveis novos e usados, criando oportunidades para consumidores adquirirem carros zero ou seminovos por valores inferiores aos praticados até recentemente, especialmente em modelos acima de R$ 100 mil.

Montadoras tradicionais reagem com descontos

Para enfrentar a concorrência chinesa, montadoras já estabelecidas no Brasil estão reduzindo preços de veículos 0km por meio de campanhas de descontos e bônus na troca de usados. O EXTRA percorreu concessionárias no Rio de Janeiro e ouviu trabalhadores, que apontaram os descontos agressivos como reação ao avanço das marcas chinesas e estratégia para manter competitividade.

A Toyota oferece bônus de R$ 10 mil na troca de um usado na compra do Yaris Cross XR, podendo chegar a R$ 40 mil para modelos como a Hilux Cabine Dupla SRX Plus AT. A montadora afirmou em nota que a política faz parte da estratégia para oferecer “condições competitivas” aos clientes. “A entrada de novos competidores, somada às transformações relacionadas à eletrificação, conectividade e digitalização, além de novas expectativas em relação à mobilidade, à experiência de compra e ao uso dos veículos, amplia as opções disponíveis e acelera a transformação ao longo de toda a cadeia de valor”, disse a Toyota.

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Outras montadoras também adotam medidas

A Honda oferece bônus de até R$ 15 mil na troca de um usado. A Volkswagen cortou cerca de R$ 10 mil no preço do T-Cross e lançou o Feirão dos Feirões Volks Vale+. A Fiat, além de bonificações para alguns modelos, reduziu o valor do Fastback Impetus Turbo de R$ 173.490 para R$ 134.990. A Stellantis, dona de marcas como Jeep e Peugeot, informou que essas condições especiais fazem parte das comemorações dos 50 anos da Fiat no Brasil. A empresa destacou que a definição de preços considera fatores como câmbio, custos de produção, logística e dinâmica do mercado, e afirmou que está “sempre atenta às variações no cenário para seguir com o posicionamento adequado e competitivo”. O EXTRA também procurou a Honda, mas não obteve retorno até o fechamento da edição.

Impacto no mercado de usados

Com a redução dos preços dos carros novos, há consequente queda nos preços dos seminovos e usados. Geraldo Victorazzo, vice-presidente Comercial e de Marketing da Auto Avaliar, explica que o mercado de automóveis funciona em cadeia: “Se a referência do carro usado é o carro novo, quando o carro novo reduz o preço, naturalmente o usado também tem uma regressão mais forte”.

Variedade de modelos e crescimento chinês

A estratégia das montadoras ocorre em meio à grande oferta de modelos nacionais e importados. Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), foram emplacados 280.600 veículos importados no primeiro semestre de 2025, sendo quase a metade proveniente da China. Em apenas um ano, o volume de veículos chineses enviados ao Brasil dobrou, passando de 71 mil para 140.800 unidades.

Para o consumidor, os carros chineses têm se tornado alternativa devido a preços mais atraentes, eletrificação, tecnologia embarcada e design moderno. A BYD, que já possui fábrica no Brasil, encerrou o primeiro semestre com 99.029 emplacamentos e alcançou, em junho, a marca de 300 mil carros eletrificados vendidos em quatro anos no país. Já a GWM informou que fechou o semestre com 35.218 unidades vendidas entre automóveis e comerciais leves.

Milad Neto, sócio e diretor-executivo da K.Lume Consultoria Automobilística, afirma: “Hoje você tem um veículo chinês de maior porte competindo com um modelo menor fabricado no Brasil. Esses carros chegam mostrando suas qualidades e dizendo ao mercado: ‘Eu também sou uma boa opção, tenho um preço extremamente competitivo’”.

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Guerra de montadoras começou na Ásia

Todo esse movimento é impulsionado pela elevada produção de veículos na China, marcada por intensa competição entre montadoras. A chamada “guerra de preços” chegou a despertar preocupação do governo chinês, que interveio para evitar concorrência predatória. Sem conseguir absorver toda a produção no mercado interno, as empresas intensificaram a expansão para outros países, incluindo o Brasil.

Segundo relatório do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), os veículos eletrificados já representam 15% das importações brasileiras provenientes da China. O professor dos cursos automotivos da Fundação Getulio Vargas (FGV), Antônio Jorge Martins, explica que os preços competitivos são resultado da forte concorrência no mercado chinês e da verticalização da produção, que amplia a margem para redução de preços, junto com incentivos do governo chinês. “Hoje há muitas fabricantes de veículos elétricos na China. Isso significa que as montadoras precisam vender fora do mercado chinês para manter a rentabilidade. Aos poucos, vemos um número cada vez maior de empresas asiáticas atuando em outros mercados justamente por essa necessidade de ampliar a lucratividade”, explica.

Procurada, a Anfavea não quis comentar. A Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto) e a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) não responderam aos pedidos de comentários até o fechamento da reportagem.