CEO da Rede D'Or defende acordo de risco entre planos e indústria farmacêutica
CEO da Rede D'Or defende acordo de risco entre planos e indústria

A alta dos custos da saúde, impulsionada por terapias cada vez mais inovadoras e onerosas, gera pressão tanto sobre as operadoras quanto sobre os clientes de planos de saúde. As empresas reclamam do aumento das despesas com tratamentos de alto custo, enquanto os usuários se queixam dos reajustes frequentes nas mensalidades.

Solução proposta por Paulo Moll

Para Paulo Moll, CEO da Rede D'Or São Luiz (RDOR3), conglomerado que controla a maior rede de hospitais do Brasil e a operadora SulAmérica, o caminho para um maior equilíbrio financeiro no setor envolve aperfeiçoar o processo de incorporação de novas tecnologias no país. Atualmente, os critérios adotados pelo SUS e pela saúde suplementar são diferentes, o que gera distorções.

Na visão do executivo, essa dualidade de critérios tem levado a situações em que pacientes recorrem à Justiça para garantir acesso a terapias que podem não apresentar benefício clínico comprovado, resultando em desperdício de recursos. Moll participou do segundo encontro do Brasil Adiante, iniciativa do Estadão que debate soluções práticas para os problemas nacionais e formula propostas a serem entregues ao vencedor das eleições presidenciais de outubro.

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Evento Brasil Adiante

O evento, realizado na quinta-feira, 11, abordou os principais desafios nas áreas de educação e saúde, com destaque para o aumento das despesas públicas decorrente do envelhecimento populacional. Participaram do painel, além de Moll, o economista Arminio Fraga, cofundador do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e ex-presidente do Banco Central, e Gonzalo Vecina, sanitarista e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Em entrevista ao Estadão após o evento, Moll defendeu também a celebração de acordos de compartilhamento de risco entre planos de saúde e a indústria farmacêutica, nos quais o pagamento do tratamento fique condicionado à sua eficácia. A seguir, os principais trechos da conversa.

Fatores de ineficiência na saúde suplementar

Na visão de Moll, a falta de integração dos dados é um ponto crucial. "A gente fez isso dentro dos hospitais da Rede D'Or e isso faz uma diferença muito grande na capacidade de entender quem é aquele paciente, qual é o plano de cuidado para ele, e a informação também está à disposição dos médicos. Agora, com o mundo da inteligência artificial, a capacidade de acessar esses dados e colocar o que é relevante na mão do profissional de saúde durante aquele atendimento vai ser uma grande revolução", afirmou. Ele destacou que a organização dos dados e a interoperabilidade, embora de execução complexa, são fundamentais para o futuro da saúde no Brasil e no mundo.

Exemplo de desperdício por falta de integração

Moll exemplificou: "Você tem, por exemplo, um paciente que fez uma tomografia há duas semanas. Muitas vezes, se você não tem acesso a aquilo, está no meio de um atendimento de emergência ou mesmo no atendimento de ambulatório, e o paciente não trouxe aquele exame, eventualmente você vai ter um desperdício e, nesse caso, ainda vai fazer o paciente tomar radiação de novo desnecessariamente." Ele acrescentou que a IA pode ajudar significativamente, pois permite que o médico acesse todo o histórico do paciente de forma rápida e relevante durante o atendimento.

Plano de saúde como artigo de luxo?

Diante da pressão dos custos, alguns especialistas preveem que o plano de saúde pode se tornar um artigo de luxo, acessível apenas a pessoas de alta renda. Moll acredita que a principal medida para evitar isso é a avaliação das novas tecnologias. "O Brasil hoje tem um modelo em que a Conitec incorpora no SUS, a ANS incorpora na saúde suplementar e, muitas vezes, antes dessas avaliações, o produto já está no Brasil com registro na Anvisa e há judicialização", explicou.

Ele destacou que, apesar do trabalho das Cortes superiores para criar limitações na cobertura, ainda há um grande número de liminares, muitas vezes cobrindo casos sem benefício para o paciente. "Eu citei aqui alguns casos conhecidos que afetavam a saúde suplementar e o SUS, de muitas vezes cobertura de medicamentos para pacientes que se beneficiariam se tivessem até 2 anos de idade, segundo a bula, e foram feitos para pacientes com 10, 12 anos. Isso é desperdício de recursos para o setor", afirmou.

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Acordos de compartilhamento de risco

Moll observou que o Brasil tem apenas um acordo de compartilhamento de risco do SUS com a indústria, enquanto a Itália possui 377. "Acho que é um ótimo caminho onde a gente alinha os interesses e tenha mecanismos de incorporação de tecnologia por busca de eficiência e eficácia do sistema", disse. Ele sugeriu que a saúde privada tenha acesso ao mesmo acordo de compartilhamento de risco do SUS, ressarcindo o sistema público ou pagando diretamente a indústria, de modo que esses acordos beneficiem toda a população brasileira, tanto do SUS quanto da saúde suplementar.

Medida prioritária para o novo governo

Questionado sobre a medida prioritária para o novo governo federal nos primeiros dois anos para lidar com a pressão de custos do envelhecimento populacional, Moll respondeu: "Eu traria um novo arcabouço de incorporação tecnológica que afeta tanto o sistema público como o privado. Quando a gente vê o pipeline aí de novas tecnologias, ele é gigantesco. Então, se a gente não trouxer para o Brasil algum mecanismo que se assemelhe mais a alguns países que estão mais avançados, como o Reino Unido, a Itália, a gente vai ter uma dificuldade grande financeira no sistema brasileiro."