O anúncio de um acordo preliminar entre Estados Unidos e Irã para encerrar quase quatro meses de guerra recolocou a geopolítica no centro das decisões de investimento, agora em sentido inverso ao dos últimos meses. A assinatura oficial está prevista para sexta-feira (19), na Suíça, e os termos completos ainda não foram divulgados, o que mantém parte da cautela entre os investidores.
Fim da guerra abre espaço para corte de juros?
O senso comum sugere que o fim do conflito trará alívio fácil, com petróleo em queda, inflação menor e espaço para o Banco Central cortar juros. As principais gestoras e casas de análise do país, no entanto, trabalham com uma leitura mais contida, na qual o acordo tem um efeito menor sobre os preços, com o eixo do risco para ativos locais se deslocando para outros fatores. Essa é a expectativa que mais gestoras descartam. Para a Kapitalo, o choque inflacionário provocado pela guerra e pela alta do petróleo já está dado, e tende a se manter mesmo que o acordo se confirme. Em entrevista, Bernardo Feijó, COO da gestora, avalia que a janela para o Banco Central acelerar cortes de juros foi fechada, e os fundos da casa não carregam posições que dependam de ação do BC no curto prazo. Em carta mensal, a gestora pondera que a normalização do estreito de Ormuz reforçaria a percepção de um choque de oferta transitório, mas ressalva que o cenário segue incerto.
O diagnóstico se repete entre as maiores casas do país. Em carta mensal, a Itaú Asset avalia que, mesmo com a reabertura de Ormuz, não se volta às condições que prevaleciam antes da guerra, e aponta que a desinflação brasileira foi quase toda explicada por fatores externos. A Genoa Capital observa que o repasse da energia ainda nem chegou de forma relevante ao IPCA e projeta o índice em 5,5% em 2026, colocando na mesa até a discussão sobre uma eventual retomada de altas de juros. A Adam Capital sustenta que a inflação subjacente já rodava perto de 6% antes do conflito.
O petróleo vai mesmo desabar com a reabertura de Ormuz?
A queda recente foi expressiva, com o Brent saindo de patamares acima de US$ 100 no auge do conflito para a faixa dos US$ 80 a US$ 90 conforme avançaram as negociações, chegando a US$ 83 na manhã desta segunda. As gestoras, porém, alertam que a normalização não é imediata. A Kapitalo segue comprada em petróleo porque entende que o restabelecimento dos fluxos no estreito deve levar tempo mesmo com um acordo, o que tende a sustentar os preços por mais um período. No cenário das gestoras, a produção na região do Golfo ainda opera bastante abaixo do nível pré-guerra, e a Legacy Capital chega a estimar que, num cenário de esgotamento de estoques globais, o barril poderia voltar a avançar. Petróleo comprado, aliás, aparece como uma das apostas mais frequentes entre as casas, ainda que parte delas tenha reduzido a exposição após a queda recente.
Onde estão as oportunidades na renda fixa?
A disparada dos juros futuros nas últimas semanas colocou os títulos atrelados à inflação no centro das atenções. Papéis do Tesouro pagam taxas reais acima de 8% ao ano em prazos mais curtos, níveis não vistos desde o governo Dilma Rousseff, nível que se mantém nesta segunda mesmo após o anúncio do acordo EUA-Irã. André Leite, diretor de investimentos da TAG Investimentos, prefere as NTN-Bs mais curtas, justamente as que pagam mais de 8% de juro real, e aponta os prefixados como o maior risco do momento, já que sofrem caso o BC precise subir os juros. A recomendação se repete na XP, que projeta a Selic caindo só mais 0,5 ponto, para 14% ao ano, e mantém a preferência por papéis indexados ao IPCA de vencimentos curtos e intermediários, com alerta contra alongar prazos em excesso diante da volatilidade fiscal e eleitoral. O pós-fixado segue como base das carteiras pela liquidez. O UBS também gosta da inflação curta, com vencimentos até 2035.
Vale o cuidado com o custo de oportunidade. Uma NTN-B pagando 8% reais rende cerca de 13% ao ano somada ao IPCA, abaixo dos 14,50% do CDI hoje. A compensação vem se os juros básicos caírem mais à frente, quando o papel travado em taxa alta passa a valer mais.
E o CDB do meu banco, ainda vale a pena?
Depende do indexador e da taxa. Levantamento da Quantum Finance feito a pedido do InfoMoney mostra que, em maio, os CDBs atrelados à inflação ganharam protagonismo, com taxas médias de até IPCA mais 8% e máximas próximas de 8,5%, enquanto boa parte dos pós-fixados de prazo curto rendia abaixo de 100% do CDI, o que representa perda de eficiência na alocação. Robson Casagrande, sócio da GT Capital, explica que o mercado paga mais no curto prazo justamente por causa da incerteza com a inflação ligada ao petróleo, num quadro que ele descreve como uma curva real invertida. A orientação geral dos especialistas é evitar pós-fixados que paguem menos que o CDI ou o Tesouro Selic e dar preferência aos papéis de inflação para travar o juro real elevado.
No crédito privado, o ambiente é de seletividade. Dados da Anbima mostram que os prêmios das debêntures pararam de subir em maio depois da forte alta de março e abril, mas seguem perto das máximas do ano. Para a XP, o carrego continua sendo o rei, com foco em emissores de alta qualidade.
A bolsa caiu de quase 200 mil para 170 mil pontos. É hora de comprar?
Aqui a visão se divide. A XP mantém projeção de Ibovespa a 205 mil pontos ao fim do ano e avalia que o índice migra de um regime guiado por fatores globais para outro dominado por temas locais, com eleição e trajetória de inflação e juros como os dois grandes direcionadores. A casa vê o valuation comprimido após a correção recente como elemento de suporte. Do lado mais cético, o fluxo estrangeiro que empurrou a bolsa a recordes neste ano recuou, com saída relevante em maio e junho. A TAG alerta para a inconsistência entre um mercado de crédito deteriorado e ações ainda bem avaliadas. Entre as gestoras, a cautela com a renda variável local é generalizada, com a Adam Capital no extremo, vendida no Ibovespa. O UBS recomendou aos clientes embolsar parte dos ganhos do ano na bolsa brasileira e concentrar a exposição em commodities, como Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3), ampliando a parcela em bolsas internacionais com foco em tecnologia e inteligência artificial.
Quais os riscos que passam a importar?
O fator doméstico. As gestoras apontam três vetores simultâneos de risco para os ativos locais, sendo a inflação mais alta, o ciclo de juros no limite e a combinação de fiscal expansionista com incerteza eleitoral. A TAG estima o pacote de estímulos do governo entre R$ 180 bilhões e R$ 295 bilhões, enquanto a JGP aponta a deterioração da relação dívida sobre PIB como o ponto capaz de azedar a percepção dos investidores. A Legacy Capital observa que a curva de juros passou a precificar o risco político de forma independente do cenário externo.
O câmbio resume esse deslocamento. Luciano Telo, executivo-chefe de investimentos do UBS Wealth Management no Brasil, trata o dólar como o “canário da mina” do mercado, a variável a observar nos próximos meses. Segundo ele, se o real não acompanhar o desempenho das demais moedas emergentes, é sinal de que o investidor precisa redobrar a atenção.



