A enfermeira Raquel Maria de Oliveira Negrão, viúva do policial militar Danilo Lopes Negrão, revelou que o vício do marido em apostas esportivas gerou uma dívida de quase R$ 1 milhão. Em entrevista ao g1, ela contou que só descobriu a real extensão dos débitos após a morte dele, em setembro de 2023.
Início do vício e dívidas
Danilo começou a apostar durante a Copa do Mundo de 2022, em dezembro. Naquele ano, o mundial foi realizado em período diferente devido à pandemia de coronavírus. Em setembro de 2023, ele morreu. "Ele entrou numa depressão porque estava devendo muito dinheiro e viu que estava perdendo a dignidade dele como homem", afirmou Raquel.
A moradora de Goiânia conta que, quando o marido morreu, ficou se perguntando o porquê. "Depois de alguns dias, eu fui analisar o computador e vi uma planilha com os nomes das pessoas com quem ele tinha pegado dinheiro emprestado. Amigos e alguns agiotas. E pegou empréstimo com banco também", detalhou. A enfermeira destaca que ele pegava empréstimos "com todo mundo que ele podia" e as pessoas concordavam porque ele era uma pessoa honesta. "Ninguém imaginava o que ele estava passando", disse.
Impacto financeiro e emocional
Durante os cerca de dez meses em que o marido lidava com o vício, as contas domésticas da família chegaram a atrasar porque, segundo Raquel, ela precisou sustentar a casa praticamente sozinha. "Eu comecei a ficar doente emocionalmente por causa disso. Tive uma alergia no corpo. Ele pegando dinheiro emprestado e apostando. E as contas da casa ficaram todas para mim", afirmou.
Ela conta que, logo depois da morte, viveu "o pior inferno da sua vida", que não lhe permitiu nem viver o luto direito. "Muita gente próxima chegou e falou 'olha, o Danilo deixou uma dívida comigo. Eu queria ver como você vai fazer para pagar essa dívida. Até há pouco tempo, tinha gente me ameaçando", relatou.
Passados quase três anos da perda do marido, Raquel ainda vive os impactos financeiros. Em função de processos judiciais, a casa da família não pode ser vendida. "Eu moro até hoje na casa onde aconteceu o ato", explicou, referindo-se à morte.
Falta de tratamento adequado
Segundo a viúva, incentivado pela família, Danilo chegou a procurar terapia, mas depois ela ficou sabendo que ele faltava às consultas. Ele nunca recebeu o diagnóstico de ludopatia porque, segundo Raquel, ele não relatou o vício aos médicos.
Ludopatia é o nome dado ao transtorno relacionado ao vício em jogos de azar.
Gatilho para o alerta
A enfermeira disse que decidiu fazer o vídeo no dia do último jogo do Brasil da fase de grupos, na Copa deste ano, porque lhe deu um "gatilho", ao se lembrar que Danilo perdeu grande quantia de dinheiro ao apostar na vitória da seleção brasileira no jogo contra a Croácia, pelas quartas de final do mundial de 2022. Após empate no tempo regulamentar, o Brasil foi derrotado nos pênaltis e eliminado. "Foi o jogo do dia 9 de dezembro, dia do meu aniversário", destacou.
Como buscar ajuda
Segundo Raquel, Danilo ficou viciado em apostas esportivas e não nos jogos on-line de cassino, como Tigrinho e Aviãozinho. O transtorno foi adquirido antes da regulamentação do mercado de apostas esportivas e jogos on-line pela Lei 14.790/2023. Desde o início do mercado regulado, em 2025, as plataformas legalizadas possuem ferramenta de autoexclusão, que permite ao apostador bloquear o próprio acesso. Ela não existe em sites clandestinos.
Além disso, o Ministério da Fazenda, que regula o setor, lançou, em dezembro de 2025, a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, pela qual o CPF da pessoa pode ser bloqueado em todos os sites de apostas. O Ministério da Saúde alerta que, ao perceber sinais de compulsão, é preciso procurar ajuda. Os caminhos estão descritos no Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, elaborado pelo ministério.



