A Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo deflagraram nesta quinta-feira (25) a Operação Última Parada contra um esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) que envolvia a empresa de ônibus Transunião e um vereador da capital. Até o início da tarde, três pessoas haviam sido presas: o vereador Senival Moura (PT), Jair Ramos de Freitas, conhecido como Cachorrão, e Devanil de Souza Nascimento, o Sapo. As investigações apontam que a Transunião recebeu R$ 180 milhões em subsídios públicos apenas no primeiro semestre deste ano, segundo o promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco.
Infiltração do PCC no transporte público
Em coletiva de imprensa, Gakiya detalhou a atuação do crime organizado na economia formal e nos Três Poderes. “É uma empresa cuja direção foi capturada pelo crime organizado, pelo PCC, e também com um braço dentro do Poder Legislativo municipal. Infelizmente tivemos um vereador preso hoje”, afirmou. Ele explicou que a facção não busca ocupar cargos políticos, mas sim participar de licitações milionárias. “O crime organizado há muito está infiltrado nos Poderes do Estado. E quando eu falo nos Três Poderes do Estado, isso não quer dizer que o PCC, por exemplo, quer se tornar um partido político, um prefeito, um governador, nem mesmo um vereador ou deputado. Mas ele quer participar de uma fatia dos negócios públicos, de licitações milionárias”, completou.
Mandados e alvos da operação
A operação cumpre cinco mandados de prisão temporária e 103 de busca e apreensão. Além dos já presos, são alvo de mandados Lourival Monário, o Orelha, atual presidente da Transunião, acusado de ser nomeado pelo PCC para escoar recursos ilícitos, e Leonel Moreira Martins, o Cabeça Branca, supervisor operacional que transmitia ordens da facção. Lourival está em Roma, na Itália, e as autoridades pedirão sua inclusão na Difusão Vermelha da Interpol. Os mandados são cumpridos em São Paulo, região metropolitana e Extrema (MG).
Bens bloqueados e valores milionários
A Justiça determinou o bloqueio de R$ 194.457.851,90 em contas bancárias, 117 veículos, 21 imóveis e 3 embarcações. A Transunião opera 51 linhas de ônibus na Zona Leste de São Paulo, transportando 389 mil passageiros por dia. Apenas em 2025, a empresa recebeu mais de R$ 300 milhões do sistema de transportes paulistano. A investigação revelou que o capital social da companhia saltou de pouco mais de R$ 100 mil para mais de R$ 50 milhões sem comprovação de origem, permitindo que a empresa vencesse licitações públicas.
Morte do ex-presidente e conexões com a máfia
O inquérito começou com o assassinato de Adauto Soares Jorge, ex-presidente da Transunião, executado em 2020. Documentos do PCC, os chamados “salves”, indicaram que Adauto e Senival Moura foram condenados à morte por desvios de valores da facção. Adauto teria desviado dinheiro para um caixa dois da campanha de reeleição de Senival em 2020. Após a execução, o PCC nomeou Lourival e Jair para garantir o fluxo financeiro. Jair é apontado como o executor dos disparos. A operação também tem conexões com a máfia italiana 'Ndrangheta, investigada na Operação Mafiusi.
Medidas da Prefeitura de São Paulo
A Prefeitura de São Paulo foi comunicada sobre o afastamento da diretoria da Transunião. Em nota, a Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte (SMT) e a SPTrans informaram que a operação dos ônibus segue normalmente, sem prejuízo à população. O prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirmou que acompanha os desdobramentos e pretende intervir na empresa. “Quero fazer a intervenção, só preciso tomar conhecimento do despacho do juiz”, disse. Ele lembrou que já rompeu contratos com outra empresa de ônibus ligada ao crime organizado em 2024. A operação consolida ações recentes, como a Operação Fim da Linha, que desarticulou grupos suspeitos de lavar dinheiro através da Upbus e Transwolff.



