Alerta falso na madrugada: entenda o funcionamento do sistema
Na madrugada deste sábado (20), um alerta sonoro enviado a celulares de diversas regiões do Brasil causou susto e gerou dúvidas: por que algumas pessoas receberam a mensagem e outras não, mesmo estando na mesma cidade ou em municípios vizinhos? A resposta está na tecnologia Cell Broadcast, utilizada pelo sistema Defesa Civil Alerta. Diferentemente de aplicativos de mapa, o alerta não é enviado com base na localização precisa do aparelho, mas sim na área coberta pelas antenas de telefonia celular.
Como o sistema define quem recebe o alerta?
Segundo Thiago Ayub, diretor de tecnologia da Sage Networks, os técnicos da Defesa Civil podem desenhar áreas no mapa ou selecionar um município inteiro a partir de uma lista pré-configurada. O alerta é então distribuído pelas antenas de telefonia (Estações Rádio Base – ERBs) que atendem aquela região. Isso explica por que moradores de bairros diferentes de uma mesma cidade podem ter experiências distintas: se a área selecionada não abranger todo o município, alguns bairros ficam de fora. Em regiões metropolitanas, cidades vizinhas podem ser incluídas ou não, dependendo do recorte definido.
O fator determinante: antena, não celular
Ayub esclarece que o recebimento do alerta depende da antena à qual o celular está conectado, e não da localização exata do aparelho. Assim, uma pessoa próxima à divisa entre dois municípios pode receber uma mensagem destinada à cidade vizinha se estiver conectada a uma antena localizada naquela área. O inverso também pode ocorrer: alguém dentro da área de cobertura pode não receber o alerta se estiver conectado a uma antena fora do recorte, sem sinal móvel, ou se o aparelho não for compatível com a tecnologia.
O ataque hacker e a mensagem 'misantropia'
No caso do alerta indevido, a Defesa Civil Nacional informou que a plataforma foi tirada do ar à 1h30 após sofrer uma invasão. O disparo foi feito remotamente por alguém de fora do Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil, provavelmente um ataque hacker. A mensagem, classificada como “Alerta Extremo”, trazia a palavra “misantropia” (que significa rejeição à humanidade) e não estava relacionada a nenhuma situação real de risco.
Diferenças entre cidades vizinhas
Em regiões metropolitanas, a diferença de alcance é mais perceptível. As antenas não respeitam divisas administrativas: uma antena instalada em uma cidade pode atender aparelhos próximos à divisa com outra. Da mesma forma, uma cidade vizinha pode não receber o aviso se suas antenas não estiverem na área selecionada. Segundo Ayub, o operador pode escolher uma área no mapa ou um município em lista pré-configurada. A investigação do ataque hacker analisará o histórico de comandos para confirmar quais áreas foram selecionadas.
Fatores que impedem o recebimento
Além da área e da antena, outros fatores podem interferir: celulares sem sinal no momento do disparo, em modo avião, conectados apenas ao Wi-Fi, aparelhos antigos ou não homologados pela Anatel, ou usuários que desativaram alertas de emergência nas configurações. Celulares sem suporte a VoLTE (tecnologia para chamadas em 4G/5G) ou conectados a antenas sem esse recurso podem deixar de receber a mensagem se estiverem em uma ligação longa. O sistema não depende de internet, aplicativo ou cadastro prévio.
É possível saber quem recebeu?
O sistema permite auditoria posterior sobre quais antenas receberam a mensagem, data e horário, e distribuíram o alerta para os celulares conectados. No entanto, não há recibo individual de entrega em cada aparelho. O g1 acionou o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) para saber quais regiões foram alcançadas, estimativa de celulares atingidos e áreas selecionadas. A reportagem será atualizada com a resposta. A investigação poderá apontar as antenas usadas no disparo indevido, mas a experiência de cada morador varia conforme rede, aparelho, configuração e antena conectada.
O que aconteceu na madrugada
O alerta, enviado entre a noite de sexta-feira (19) e a madrugada de sábado (20), assustou moradores de várias cidades. Apareceu em volume alto, como uma sirene, mesmo em celulares no modo silencioso, e de forma insistente até o usuário visualizar e interromper o aviso. A mensagem trazia a palavra “misantropia”, sem relação com qualquer emergência pública. A Defesa Civil Nacional informou que a plataforma foi retirada do ar após a invasão e que a Polícia Federal será acionada. O sistema só será religado quando as condições de segurança forem restabelecidas.



