O crime de abigeato, que consiste no furto de gado, apresentou crescimento de 8% no Rio Grande do Sul nos primeiros cinco meses de 2026, comparado ao mesmo período de 2025. Dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP) indicam 1.359 ocorrências neste ano, contra 1.256 no ano anterior. Quadrilhas especializadas têm assustado produtores rurais de diversas regiões do estado, levando rebanhos inteiros e causando prejuízos significativos.
Casos recentes de furto de gado
Em Vila Nova do Sul, na região central do estado, 43 animais das raças Braford e Angus foram furtados de uma só vez. O rebanho fazia parte de um lote de 60 cabeças recém-adquiridas pelo produtor Luciano Machado, de Júlio de Castilhos. Na ocorrência policial, ele descreveu que os ladrões deixaram rastros de pneus de caminhão no local. “O sentimento é de impotência, de tristeza, a gente fica chateado e desanimado”, afirma Luciano, que estima o prejuízo em R$ 100 mil.
Na localidade de Cerca Velha, interior de Barros Cassal, ladrões levaram 20 cabeças da raça Angus no final de março. Segundo o produtor rural Nicolau Silveira Neto, os criminosos não danificaram a propriedade e fugiram sem deixar vestígios, provavelmente de caminhão. O prejuízo estimado oscila entre R$ 70 mil e R$ 80 mil. “Não tem o que fazer. Ninguém viu nada. Temos vizinhos que têm sido vítimas há muito mais tempo, levaram entre duas e oito cabeças por vez. É uma quadrilha que deve estar agindo”, suspeita.
Família perde 90 cabeças em São Francisco de Paula
Em São Francisco de Paula, a família da produtora rural Dionara Ricardo dos Reis é uma das principais vítimas. Entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026, foram furtadas 90 cabeças de gado da tia dela, uma idosa de 87 anos, na localidade de Várzea do Cedro. Dionara e o irmão são responsáveis por administrar o rebanho. Parte dos animais é de cria, aptas a parir terneiros. “Tinha vacas que ela chamava pelo nome, que ela zelou e cuidou, com duas, três crias. Ela sempre preservou esse gado. Então, nós, sobrinhos, zelamos por isso”, afirma. Dionara, que calcula o prejuízo em R$ 650 mil, acredita em um esquema organizado que inclui logística para transporte e receptação. “Possivelmente, tem quem compre esse gado roubado, vendido por valores abaixo de mercado”, acredita.
Na mesma cidade dos Campos de Cima da Serra, o pecuarista Antônio Leo Gil teve furtadas em abril, de uma só vez, 37 cabeças de gado estimadas em R$ 170 mil, no distrito de Lajeado Grande. Segundo ele, os ladrões aproveitaram uma noite de lua cheia para conduzir os animais depois de derrubar uma cerca. “Tiraram do campo, saíram por uma estrada, entraram em outra propriedade onde fotografei o trajeto dos animais em direção a um campo investigado (pela Polícia Civil) uma semana depois. Mas, no mesmo dia, devem ter retirado os animais do local. Já tinha caminhão esperando para carregar”, acredita. Segundo o produtor rural, 20 vacas gordas, prontas para o abate, faziam parte do lote furtado.
Delegado fala em migração do crime
A Divisão de Repressão aos Crimes Rurais e de Abigeato (Dicrab) da Polícia Civil trata esses furtos em larga escala como casos “pontuais”, sendo minoria no contexto das estatísticas. “Não verificamos incremento nesse tipo de ação. Na verdade, as informações que temos são de manutenção nesses números. O que temos é migração de um lugar onde o trabalho policial se intensifica para outros locais onde o trabalho policial não estava dedicado a esses combate”, garante o diretor da Dicrab, delegado Heleno dos Santos. O delegado disse que, se consideradas as ocorrências ainda em andamento — os dados da SSP levariam em conta casos em aberto —, houve queda de 10% na incidência de crimes nos últimos três meses, na comparação com 2025.



