Um estudo inédito em escala nacional revela que cerca de 120 mil mortes no Brasil, ocorridas entre os anos 2000 e 2019, podem ser atribuídas às ondas de calor. A pesquisa, conduzida por cientistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA), cruzou dados de calor extremo com internações e óbitos registrados no Sistema Único de Saúde (SUS) ao longo de duas décadas. Os resultados indicam que os efeitos das altas temperaturas sobre a saúde nem sempre são imediatos; em muitos casos, o calor atua como um fator agravante de doenças preexistentes, especialmente respiratórias e cardiovasculares, atingindo com mais intensidade grupos vulneráveis como idosos, pessoas de baixa renda e com menor nível educacional.
Metodologia e critérios
O estudo considerou como onda de calor períodos de pelo menos dois dias consecutivos em que a temperatura média ficou entre os 5% dias mais quentes já registrados em cada município, com base no clima de referência de 1981 a 2010. Para chegar à estimativa, foram analisados praticamente todos os óbitos do país no período — um total de 19,8 milhões de mortes por causas naturais (excluídas causas externas como acidentes e violência) registradas no Sistema de Informações sobre Mortalidade do DataSUS, abrangendo 5.566 municípios. Desse universo, 119.643 mortes foram associadas às ondas de calor, o que equivale a 0,6% do total de óbitos. Embora o percentual pareça pequeno, representa uma média de aproximadamente 6 mil mortes por ano que, segundo o modelo, não teriam ocorrido naquele momento se não fossem os picos de calor. Os autores ressaltam que se trata de uma estimativa populacional e que as altas temperaturas funcionam como um fator agravante, não necessariamente a causa única de cada óbito. Além disso, como o critério para definir ondas de calor foi conservador e erros de medição tendem a subestimar os resultados, é provável que os efeitos reais sejam ainda maiores.
Impactos na saúde: internações e mortes
Um dos achados importantes do estudo ajuda a compreender por que os efeitos do calor nem sempre aparecem de forma simples nas estatísticas de saúde. Nas internações analisadas no SUS entre 2010 e 2019, os pesquisadores encontraram aumento nas hospitalizações por doenças respiratórias, especialmente pneumonia, e por problemas do aparelho geniturinário, como insuficiência renal e infecções urinárias. Esse resultado está alinhado ao conhecimento sobre os efeitos do calor no organismo: as altas temperaturas favorecem a desidratação, sobrecarregam os rins e podem agravar doenças respiratórias. No caso das doenças cardiovasculares, o padrão foi diferente: as internações caíram durante as ondas de calor na maior parte das regiões, mas as mortes por causas cardíacas aumentaram. Uma hipótese é que, em episódios mais intensos, parte desses casos evolua rapidamente para quadros graves, antes que a pessoa consiga chegar ao hospital. Esse descompasso indica que olhar apenas para as internações pode subestimar o impacto das ondas de calor na saúde. Ao todo, as ondas de calor foram associadas a 33.858 mortes por doenças cardiovasculares e 24.225 por doenças respiratórias. Embora o número absoluto seja maior entre as causas cardíacas, o peso proporcional do calor foi maior nas doenças respiratórias: 1% de todas as mortes respiratórias do período, contra 0,53% das cardiovasculares.
Desigualdades no impacto do calor
O estudo mostra que os efeitos das ondas de calor não se distribuem de forma igual pela população, acompanhando desigualdades já conhecidas no país, como idade, escolaridade, renda, moradia e acesso a serviços de saúde. Os grupos mais afetados incluem:
- Idosos de 65 anos ou mais: foram 97.167 mortes atribuíveis ao calor nessa faixa etária, cerca de 80% do total. A vulnerabilidade maior está ligada à menor capacidade do organismo de regular a temperatura, à presença mais frequente de doenças crônicas e ao uso de medicamentos que podem interferir na hidratação.
- Mulheres: o risco de morte durante ondas de calor foi maior entre mulheres do que entre homens em todas as zonas climáticas analisadas. Entre eles, o aumento do risco variou de 4% a 9%; entre elas, de 6% a 16%, dependendo da região.
- Pessoas com menos escolaridade: o estudo identificou um gradiente social claro. Entre pessoas sem nenhum ano de estudo, o aumento do risco chegou a 19% em algumas zonas climáticas. Entre os mais escolarizados (12 anos ou mais de estudo), a alta ficou entre 1% e 7%. A escolaridade funciona como um retrato indireto de renda, condições de moradia e acesso a ambientes mais protegidos do calor.
- Crianças menores de 10 anos: nesse grupo, o efeito mais marcante apareceu nas internações por gastroenterite (diarreia), a causa infantil mais associada ao calor em todas as macrorregiões. A relação pode estar ligada à desidratação e ao maior risco de contaminação de água e alimentos em períodos mais quentes.
Sobre a análise por raça e cor, os autores pedem cautela. No recorte nacional, o risco apareceu maior entre pessoas brancas, mas isso pode refletir falhas no preenchimento da informação em cidades menores. Quando a análise considera apenas regiões metropolitanas, onde o registro tende a ser mais confiável, o risco entre pessoas pretas se iguala ou supera o observado entre brancas. Isso indica que as desigualdades raciais diante do calor podem estar subestimadas nos dados nacionais.
Perfis regionais das ondas de calor
O estudo também revela que as ondas de calor têm comportamentos diferentes pelo país. Foram identificados três perfis regionais principais:
- Norte e Centro-Oeste: eventos mais frequentes e longos, com episódios persistentes que duram dias seguidos e impõem estresse térmico prolongado, com impacto sobre rins e equilíbrio de líquidos.
- Sul e Sudeste: ondas menos duradouras, porém mais intensas em relação ao clima local, com picos abruptos que provocam respostas agudas do organismo, como aceleração dos batimentos cardíacos, associadas a descompensações cardiovasculares e respiratórias.
- Nordeste: situação intermediária, com grande variação interna e aumento da frequência e duração dos eventos na década de 2010.
Há ainda uma tendência de avanço: na maior parte dos municípios brasileiros, as ondas de calor ficaram mais frequentes e mais intensas ao longo das duas décadas analisadas. A distribuição estadual das mortes acompanha de perto o tamanho da população. São Paulo concentrou o maior número absoluto de óbitos atribuíveis ao calor, com 30.813 mortes, enquanto Roraima teve o menor total, com 167. No entanto, quando se observa a proporção de mortes associadas às ondas de calor, o Amapá aparece com os maiores percentuais, com frações que chegam a 1,77% nas mortes por doenças respiratórias.
Recomendações para a saúde pública
Para os autores, a principal mensagem prática do estudo é que o calor extremo precisa ser incorporado de forma mais clara no planejamento da saúde pública. O estudo lista medidas para preparar melhor o SUS diante de eventos cada vez mais frequentes:
- Alertas antecipados para a população e serviços de saúde antes de períodos críticos.
- Integração entre dados climáticos e de saúde para mapear épocas e áreas de maior risco.
- Foco nos mais vulneráveis, como idosos e pessoas em situação socioeconômica desfavorável.
- Monitoramento de urgências e emergências para detectar aumento da demanda antes de internações e mortes.
- Melhora dos registros de raça/cor e escolaridade para identificar desigualdades com mais precisão.



