Morre Sam Neill, ator de Jurassic Park, aos 78 anos; ele estava livre do câncer
Morre Sam Neill, de Jurassic Park, aos 78 anos

O ator neozelandês Sam Neill, conhecido por seus papéis em filmes como 'Jurassic Park' e 'O Piano', morreu nesta segunda-feira (13) em Sydney, na Austrália, aos 78 anos. A causa da morte não foi divulgada, mas a família informou que ele permaneceu livre do câncer até o fim.

Neill havia sido diagnosticado com linfoma não Hodgkin em estágio avançado em 2023. Após a quimioterapia perder o efeito, ele recebeu a terapia CAR-T, que utiliza células de defesa do próprio paciente modificadas em laboratório para atacar o tumor. O tratamento, considerado experimental há pouco mais de uma década, levou o ator à remissão completa.

O que é a terapia CAR-T?

A terapia CAR-T é uma das maiores revoluções recentes da oncologia. Diferente da quimioterapia, que destrói células que se multiplicam rapidamente, incluindo saudáveis, a CAR-T treina o próprio sistema imunológico para reconhecer e eliminar células cancerígenas.

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O processo começa com a retirada dos linfócitos T do paciente. Essas células são enviadas a um laboratório, onde recebem uma modificação genética: é inserido um receptor artificial chamado CAR, capaz de identificar proteínas na superfície das células tumorais. Após serem multiplicadas, as células são reinfundidas no paciente, onde passam a caçar e destruir o câncer.

O oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, compara o processo à criação de um 'super soldado' imunológico. 'Nós retiramos os linfócitos T do paciente, reprogramamos essas células para reconhecer o tumor e depois as reinfundimos no organismo já preparadas para atacá-lo', explica.

Quando a CAR-T é indicada?

Atualmente, a terapia é aprovada para alguns tipos de câncer hematológico, como leucemias, linfomas e mieloma múltiplo. Geralmente, é reservada para pacientes cujo câncer voltou após o tratamento ou deixou de responder às terapias convencionais – cenário semelhante ao de Sam Neill.

Pesquisadores também estudam o uso da CAR-T contra tumores sólidos, como pulmão, mama e cérebro, mas esses resultados ainda são iniciais.

Avanços no Brasil

Embora a CAR-T tenha sido desenvolvida no exterior, o Brasil vem ampliando sua capacidade de produzir a terapia nacionalmente. Em junho deste ano, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o Instituto Butantan, divulgaram dados preliminares de um estudo clínico em que 87,5% dos pacientes com linfoma não Hodgkin apresentaram redução significativa ou desaparecimento do tumor após receberem uma versão nacional da CAR-T desenvolvida no Hemocentro de Ribeirão Preto.

Outro estudo, conduzido pelo Hospital Israelita Einstein, mostrou que 81% dos pacientes com leucemias e linfomas avançados responderam ao tratamento, e 72% entraram em remissão completa. O projeto foi financiado pelo Ministério da Saúde por meio do Proadi-SUS.

Desafios de acesso no Brasil

Apesar dos avanços, o acesso à CAR-T no Brasil ainda é restrito. O tratamento comercial pode custar entre R$ 2 milhões e R$ 4 milhões por paciente, além de exigir hospitais altamente especializados. Um estudo publicado na revista Frontiers in Hematology aponta desafios como a ausência de modelos de financiamento, o número reduzido de centros habilitados e a necessidade de enviar células para o exterior.

Segundo Stefani, muitos pacientes pioram ou morrem antes de obter acesso à terapia. 'A judicialização não conserta o sistema. Ela conserta o problema daquele paciente', afirma.

Próximos passos

Especialistas afirmam que o principal desafio agora é transformar os resultados das pesquisas em uma política de acesso. Isso passa pelo registro na Anvisa, avaliação da Conitec e definição de um modelo de financiamento sustentável. Produzir a terapia no Brasil pode reduzir custos, mas não resolve o problema por si só.

Enquanto isso, a CAR-T segue oferecendo esperança para pacientes com cânceres hematológicos agressivos que já esgotaram outras opções. O desafio é tornar essa tecnologia uma alternativa disponível para todos que dela precisam.

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