Em 2026, a Lei Maria da Penha completa 20 anos, mas a violência contra a mulher persiste com um aspecto alarmante: ataques direcionados ao rosto das vítimas. Pesquisadores apontam que essas agressões visam marcar e destruir a identidade feminina, indo além do ato de ferir.
Caso Alana Anísio Rosa: ataque sem vínculo
Alana Anísio Rosa, 20 anos, moradora de São Gonçalo (RJ), sofreu uma tentativa de homicídio dentro de casa, mesmo sem qualquer relacionamento com o agressor. "Eu sempre tive medo de acabar em um relacionamento abusivo. Só que você também nunca espera que vai ser sem ter nenhum relacionamento", afirma. No fim de 2023, ela recebeu flores e doces anônimos com mensagens como "para a mulher mais bonita de São Gonçalo". O autor, Luiz Felipe Sampaio, 22 anos, frequentava a mesma academia. Com o pai, Alana enviou uma mensagem recusando as investidas. Um mês e meio depois, Sampaio invadiu o quintal armado com uma faca e desferiu 30 golpes. A mãe de Alana interrompeu o ataque ao voltar do trabalho mais cedo. A jovem ficou duas semanas em coma induzido e sobreviveu. O agressor foi preso em flagrante. A defesa busca tipificar o caso como tentativa de feminicídio; a defesa do acusado tenta desqualificar para lesão corporal.
Subnotificação e marcas perpétuas
Estudo com 3.193 usuárias do SUS na Grande São Paulo revelou que 76% relataram violência psicológica, física ou sexual, mas apenas 3,8% tinham registro formal nos prontuários. As marcas faciais impõem lembrança contínua do trauma. Em Santos (SP), a médica Samira Khouri, 27 anos, foi agredida pelo então namorado, o fisiculturista Pedro Camilo Garcia Castro, 24 anos. Durante uma viagem a São Paulo, após discussão em casa noturna, Samira voltou sozinha ao apartamento. Castro chegou e desferiu socos no rosto dela por seis minutos, mesmo após ela perder a consciência. Ele quebrou a própria mão. "Todo dia eu olho no espelho, eu sorrio e falo assim: essa não sou eu. Porque está muito torto", relata Samira. O agressor aguarda julgamento preso.
Acolhimento e projetos de lei
O Instituto Um Novo Olhar, idealizado pela médica Carla Góes em São Paulo, oferece cirurgia reparadora gratuita, apoio psiquiátrico, psicológico, jurídico e assistência social, em parceria com o Hospital das Clínicas. A iniciativa atendeu Cristiane Gomes, cujo ex-marido disparou um tiro no rosto dela há oito anos. Após recuperação, ela usa redes sociais para conscientizar outras mulheres. O ex-marido cumpre pena por tentativa de feminicídio. Na Câmara dos Deputados, a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher aprovou projeto que agrava penas para lesão, mutilação ou trauma no rosto, pescoço ou partes íntimas de mulheres. A proposta aguarda análise da CCJ.
Panorama internacional
Na Colômbia, o ataque com ácido a Natalia Ponce de Leon levou a uma lei específica. Na Inglaterra, a modelo Katie Piper, vítima de ácido, fundou instituição de caridade. Na Índia, em Agra, um estabelecimento contrata exclusivamente mulheres sobreviventes de ataques com ácido. Alana Anísio Rosa, de volta aos estudos, conclui: "Eu continuo sendo a mesma pessoa com a mesma identidade. Tenho os mesmos objetivos. Só que meu rosto, por enquanto, vai ser desse jeito. Eu sei que eu tô viva. Eu não posso me deixar abater, porque seria o objetivo dele. Eu quero continuar sendo quem eu sempre fui."



