Há três anos, a produtora audiovisual Anna Gouveia, de 37 anos, decidiu zerar o consumo de álcool por um ano. Antes autointitulada 'inimiga do fim', após noites de bebedeira, experimentou uma rotina sem bebidas nos finais de semana. O ano de abstinência virou três, e hoje ela comanda a comunidade 'Tem gente que não bebe', com mais de 100 mil seguidores.
Números da abstinência no Brasil
Anna não é a única. Dados do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA) mostram que a abstinência entre pessoas de 25 a 34 anos aumentou de 46% para 61% em 2025. Entre jovens de 18 a 24 anos, o índice chega a 64%. O fenômeno atinge todas as regiões do país, segundo Mariana Thibes, doutora em sociologia e coordenadora do CISA: 'Classificamos como um movimento cultural que tende a aparecer primeiro nas grandes metrópoles, mas é amplo e se estende para outros lugares.'
Motivações: saúde, performance e status
A razão para o abandono do álcool não é econômica. A maioria migra para hábitos que exigem mais recursos financeiros. 'Quem parou de beber não necessariamente está gastando menos', afirma Thibes. Segundo o Relatório de Tendências Esportivas de 2025 do Strava, o percentual de jovens da geração Z que registraram provas oficiais na plataforma cresceu 123% nas maratonas e 77% nas meias maratonas. 'Os mais jovens usam o esporte como ferramenta de socialização e expressão estética', diz Rosana Fortes, country lead do Strava no Brasil.
O publicitário Duda Bueno, de 33 anos, deixou de beber há três anos. 'Desde a adolescência eu bebia muito, foi uma decisão difícil, era muita pressão. Mas fui entrando no mundo do esporte e saí', relata. Hoje, mais de 60% de seus amigos vieram da corrida e do crossfit. Os gastos com bebidas foram substituídos por suplementação e tênis de corrida de cerca de R$ 1,5 mil.
Empresas miram o público sóbrio
O Grupo Caffeine Army, dono do SuperCoffee, fundado em 2019, atrai consumidores que buscam performance. O SuperCoffee, substituto do café tradicional, é vendido entre R$ 130 e R$ 220. 'Existe uma parcela de consumidores que deseja participar de ocasiões sociais sem abrir mão da disposição, da produtividade ou da rotina do dia seguinte', afirma Taís Silveira, COO da Caffeine Army.
Globalmente, o segmento sem álcool crescerá mais de US$ 4 bilhões até 2028, segundo a IWSR. No Brasil, a taxa de crescimento anual projetada é de 10% entre 2024 e 2028. As cervejas sem álcool e de baixo teor representam 5% da produção nacional. A Heineken lançou a opção zero em 2020 e, em maio, lançou a Ultimate, com 97 calorias e sem glúten. Cecilia Bottai Mondino, diretora de operações do Grupo Heineken, afirma: 'Os jovens não deixaram de socializar ou sair para viver algo diferente. Mas agora se preocupam em como se apresentam, não querem mais ter a ressaca moral.'
Na Ambev, em 2025, as bebidas zero álcool cresceram 30% no Brasil em comparação ao ano anterior. Considerando todo o portfólio de 'escolhas equilibradas', a alta foi de 67%. A empresa disse em nota: 'Não enxergamos esse movimento como algo restrito a uma geração específica.'
Saúde mental e dúvidas sobre o futuro
A segunda hipótese para a abstinência é a saúde mental. Anna Gouveia decidiu parar após episódios de ansiedade pós-bebedeira: 'No dia seguinte ficava baixo astral.' Ela criou a comunidade 'Tem gente que não bebe' e hoje é convidada para bares que oferecem cartas sem álcool. 'É uma resposta à demanda', diz.
Mariana Thibes, do CISA, pondera: 'Não sabemos se a moda veio para ficar. Ainda não temos certeza.'



