Missão Velha, conhecida como "Porta do Cariri", foi uma das primeiras cidades da região a ser povoada no início do século 18. A cidade, que atrai visitantes pela cachoeira homônima, completou 162 anos da criação da comarca no último sábado (11). A fundação do município ocorreu em 28 de janeiro de 1748 (278 anos) e a emancipação oficial em 8 de dezembro de 1864 (162 anos). Hoje, vivem no município quase 37 mil pessoas.
Origem e fundação
Segundo historiadores, em 1707, o baiano João Correia Arnaud, descendente de Caramurus, chegou às proximidades da cachoeira e viu o local como um oásis. "Naquela época a febre era o ouro e os baianos tiveram notícia de que aqui no morro dourado existia muito ouro. Então, o nosso fundador João Correia Arnaud veio da Bahia até aqui para ver a possibilidade de vir morar. Quando ele chegou, viu que ali era um potencial oásis do Cariri e depois retornou com toda a família", explica o historiador João Bosco André. "Tem-se notícia de uma casa na cachoeira, que teria sido a primeira construção civil do Cariri."
Ligação com o catolicismo
As missões católicas chegaram com os primeiros colonizadores, lideradas por missionários capuchinhos italianos. O nome da cidade remete à primeira missão (velha) realizada. "Missão Velha é a mãe da evangelização no Cariri. Em termos de ocupação, é um dos municípios mais antigos do Cariri e em termos de catolicismo também, já que a paróquia foi criada no dia 28 de janeiro de 1748 – a primeira freguesia do Cariri, desmembrada de Icó", afirma a historiadora Célia Magalhães. A padroeira inicial foi Nossa Senhora da Luz, depois São José, que se tornou padroeiro a partir de 1760.
A igreja matriz passou por transformações ao longo dos anos. De capela simples em terreno brejeiro, ganhou nova estrutura após a frente da capela cair. "O terreno na época era bem fértil e bem embrejado. A frente da capela caiu e os devotos da época junto com o padre construíram a matriz, uma igreja maior e imponente", conta o paroquiano e professor Felipe Alencar. A matriz, inspirada em igrejas de Roma, tem arquitetura belíssima, com arcos, colunas e portas altas.
Outra construção eclesiástica importante é a Capela de Santo Antônio, no distrito de Missão Nova, com 301 anos. Historiadores afirmam que é o primeiro templo católico do Cariri. O devoto Cícero Ferreira dos Santos, voluntário da capela, destaca: "A história dele desperta a minha fé, a fé de muitas pessoas. Dedicação a Jesus e a fé nas coisas da igreja. Deu sua própria vida para servir, isso desperta a nossa vida."
Prédios históricos e o bunker do primeiro prefeito
No distrito de Missão Nova, um casarão do século 19 pertencente a Antônio Ageu Araruna, grande latifundiário da época, se destaca. "Na frente tinha um engenho. Lá é como se fosse a casa grande e na frente o engenho e a plantação de cana. Ali, eles tinham o domínio dos trabalhadores, com certeza houve trabalho escravo", explica Célia Magalhães. O casarão também acolhia pessoas importantes que chegavam à região.
No centro da cidade, a casa da Família Pita, de 1904, abrigou os padres Francisco de Assis e Lauro Pita, além do industrial Antônio Pita. Na Rua Francisco Basílio, um casarão de 1927 guarda um bunker com túnel fortificado, construído por Isaías Arruda, primeiro prefeito de Missão Velha. "Aquela casa diz muito sobre o poder que tinha o coronel Isaías Arruda. É uma casa portentosa e bonita, com arquitetura diferenciada. Ele construiu também a prefeitura. O bunker, no estilo alemão, servia para se proteger. Ele tinha muitos inimigos, era amigo e inimigo de Lampião", relata a historiadora.
As duas casas estão desabitadas. Historiadores lutam para transformar a casa do primeiro prefeito em museu, mas por ser particular, ainda não houve consenso. Célia Magalhães faz um apelo: "É muito importante porque conta a história do povo, da cultura. Eu quero fazer um apelo aos gestores municipais, que tenham maior zelo pelo patrimônio. Cada prédio não é só parede, tijolo e porta; ali moraram pessoas que contaram suas histórias."
O município não tem levantamento do total de imóveis históricos preservados. O secretário de Cultura e Turismo, Vicente de Paulo Ribeiro Silva, afirma: "A gente se depara com a burocracia das famílias, mas com o mapa do turismo conseguimos abrir portas. Em parceria com outras instituições, estamos fazendo um estudo sobre todos os prédios históricos para montar um projeto e tornar mais visível o turismo nesses prédios."
Estação Ferroviária: reforma e novo complexo turístico
A antiga Estação Ferroviária, parte da Estrada de Ferro de Baturité, chegou a Missão Velha em 1925. "O centro da cidade era a estação ferroviária. Galpões de algodão se instalaram ao lado, indústrias, e o sentimento de pertencimento, a saudade que as pessoas têm do trem... O que é uma estação ferroviária se não é um ponto de encontro de idas e vindas?", emociona-se a arquiteta Favianny Ricarte. O trem transportava mercadorias e passageiros até o final dos anos 1980, quando foi desativado.
O prédio passou por reformas entre 1940 e 1950, mudando do estilo eclético para o art decó. Agora, está em reforma para se transformar em um complexo turístico. "A estação abrigou a biblioteca municipal de 2008 a 2012. Hoje, a reforma promete dar vida a esse espaço. Esperamos que seja o pontapé inicial para que as pessoas vivenciem uma nova época dessa área obsoleta", comenta Favianny. Ela reforça: "É importante que os órgãos municipais e estaduais deem o pontapé inicial. A população precisa de incentivo e educação para sentir pertencimento e amar o patrimônio."
De acordo com a Prefeitura, a obra de reestruturação inclui restauração do prédio e intervenções na área frontal. Os antigos vagões serão adaptados para pequenos comércios. Os recursos são do município e do Ministério da Cultura. A previsão de conclusão é o segundo semestre de 2026. O secretário Vicente de Paulo Ribeiro Silva promete: "Aqui vai contemplar biblioteca pública, espaço gastronômico e de apresentações culturais. Vamos manter a identidade original para não apagar nossa história e cultura."



