A escadaria verde, amarela e azul localizada na Rua Eduardo Jansen, próxima à Praça Mauá, no Centro do Rio, tornou-se um fenômeno nas redes sociais após viralizar recentemente. Conhecida há quase três décadas por moradores e turistas que percorrem roteiros históricos da Zona Portuária, a escadaria ganhou nova dimensão com a visita de artistas como Xande de Pilares e Ludmilla, além de inúmeros influenciadores digitais.
Transformação na rotina dos moradores
O aumento repentino da visibilidade transformou a vila residencial onde a escadaria está localizada em um destino para visitantes de diferentes bairros e cidades. Nos fins de semana, alguns visitantes chegam a esperar cerca de duas horas para conseguir uma foto no local. A repercussão trouxe orgulho para quem mantém a tradição desde 1998, mas também alterou a rotina dos residentes.
Para lidar com o novo fluxo de visitantes, os moradores passaram a criar orientações de convivência e formas de organizar o espaço sem interromper a visitação. Embora afirmem gostar de ver a escadaria reconhecida e admirada, eles destacam que a popularidade repentina trouxe desafios para uma rua essencialmente residencial.
Orientações para visitantes
Na entrada da vila, um guia reúne informações sobre a história da escadaria e recomendações para quem visita o local. Entre as orientações estão pedidos para falar baixo, não jogar lixo no chão, não filmar moradores sem autorização e não trocar de roupa dentro da vila. Essas recomendações surgiram após situações registradas desde que a escadaria ganhou destaque.
Uma das orientações que mais chama a atenção é a que pede para que visitantes não troquem de roupa no local. De acordo com a comunidade, alguns turistas passaram a utilizar a rua para trocar de roupas antes das sessões de fotos, o que gerou desconforto entre os moradores. Também houve relatos de pessoas fotografando o interior das residências sem autorização.
Relato de moradora
A artesã Leda Teodoro, que vive há anos na Rua Eduardo Jansen e vende peças de crochê na janela de casa, afirma que já passou por esse tipo de situação. Segundo ela, uma turista chegou a fotografar o interior de sua residência sem autorização. "A mulher estava aqui dentro, até no focou da minha cozinha. Não foi nem do crochê. A mulher estava aqui dentro, tirando foto. Aí eu falei que a gente tem que arrumar um jeito desse lugar aqui não ficar tão cheio… Porque se não, eu tenho que ficar com a minha casa toda fechada", contou.
Segundo os moradores, o objetivo das orientações não é restringir a visitação, mas garantir que a convivência entre turistas e moradores aconteça da melhor maneira possível.
Tradição desde 1998
A história da escadaria começou durante a Copa do Mundo de 1998, quando a artista e moradora Márcia Regina criou a primeira pintura inspirada nas cores da bandeira brasileira. A decoração chamou a atenção dos moradores da vila e acabou se transformando em uma tradição da Rua Eduardo Jansen. Desde então, Márcia é responsável pelos desenhos que dão identidade à escadaria.
Há 28 anos, ela lidera a renovação da decoração a cada Copa do Mundo, promovendo alterações nos desenhos e criando novos elementos. As tintas utilizadas são custeadas pelos próprios moradores e a escadaria costuma ser repintada a cada quatro anos. Segundo a comunidade, esta é a primeira vez, em quase três décadas de tradição, que o local registra uma movimentação tão intensa de visitantes.
Limpeza e conservação
Além da decoração, a conservação da rua também é realizada pela própria comunidade. A limpeza da vila é feita pelos residentes, que também cuidam da manutenção das pinturas e dos espaços comuns. Eles afirmam que equipes da Comlurb não costumam realizar serviços de limpeza no interior da vila.
Turistas de diferentes cidades
Mãe e filha, Maysa Marques e Ângela Marques, moradoras de Diadema, no ABC Paulista, incluíram o local no roteiro de uma viagem ao Rio após conhecerem a escadaria pelas redes sociais. "Quando estávamos programando a viagem, já tínhamos visto fotos na internet e no Instagram. Depois vimos também o perfil da própria escadaria e fomos colocando o local no nosso roteiro. Achei muito legal ver a participação dos moradores em tudo isso", contou Maysa.
A movimentação também tem gerado reflexos positivos para alguns moradores. Leda passou a receber mais visitantes interessados nas peças de crochê que expõe na janela de casa. Recentemente, a vitrine ganhou um cliente ilustre: durante a gravação do clipe da música "Vento", o cantor Xande de Pilares comprou todas as peças de crochê que estavam disponíveis para venda. A cantora Ludmilla também visitou a escadaria e tirou fotos.
Moradores desmentem cobrança
Com o aumento da popularidade, também começaram a circular informações falsas sobre o local, como a de que haveria cobrança para fotografar na vila. A informação foi desmentida pelos moradores em uma página criada para divulgar a história da escadaria e esclarecer dúvidas dos visitantes. Segundo a comunidade, nunca houve qualquer tipo de cobrança para tirar fotos no espaço.
Expectativa pós-Copa
Enquanto administram a fama repentina, os moradores se preparam para os jogos da Seleção Brasileira. A expectativa é reunir vizinhos para assistir às partidas do lado de fora das casas, mantendo uma tradição comunitária que existe há décadas na rua. "Queremos fazer um churrasco e assistir ao jogo aqui fora. Estamos nos programando para isso", contou um morador. Apesar do movimento intenso, a expectativa é que, após o fim da Copa do Mundo, a Rua Eduardo Jansen volte ao ritmo de antes.



