O Edifício Copan, um dos cartões-postais mais famosos de São Paulo, tornou-se também um símbolo da expansão dos aluguéis de curta temporada no Brasil. Projetado por Oscar Niemeyer, o prédio abriga mais de mil apartamentos e atrai um fluxo constante de turistas, encantados pela arquitetura icônica e pela localização central.
A operação de aluguel por temporada no Copan
O empresário Judson Sales administra 103 dos 1.160 apartamentos do edifício destinados a locações temporárias. Para gerenciar essa operação, ele montou uma estrutura própria de atendimento aos hóspedes, com espaço de apoio na galeria do edifício e até sistema de tradução para diferentes idiomas. Segundo ele, a atividade cresceu gradualmente ao longo dos anos. Sales afirma ter recebido mais de 20 mil hóspedes em um único ano, muitos atraídos pela oportunidade de se hospedar em um dos edifícios mais emblemáticos da cidade.
Ele também argumenta que parte dos imóveis administrados estava em condições precárias antes de ser reformada para receber turistas. "Como eu comecei no Copan alugando a minha própria casa, quando eu não viajava, óbvio que não tinha como ter uma estrutura dessa. E as coisas foram crescendo aos poucos", conta Sales.
Concorrência desleal com a hotelaria
Um hotel de 100 apartamentos seria considerado de médio porte. A associação do setor hoteleiro considera o serviço de locação temporária uma concorrência desleal, por não pagar os mesmos impostos que os hotéis. "Na hotelaria, nós pagamos uma das maiores cargas tributárias do mundo. Perde a União, perde os estados, perde os municípios", diz Manoel Linhares, da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis.
O ponto de vista do síndico
Para Guilherme Milani, síndico do Copan, os problemas não são exclusivos dos hóspedes. "Houve rompimento de regras? Houve. A gente também tem moradores e inquilinos que também transgridem regras aqui". Ele lida com reclamações de quem sente que o edifício residencial virou um "hotel informal com alguns moradores". No entanto, Milani acredita que o aluguel de curta duração tem ajudado a revitalizar o Centro de São Paulo, onde 20% dos imóveis estão desocupados.
O debate global sobre aluguéis por aplicativos
A discussão ocorre em meio ao avanço de plataformas como Airbnb e Booking.com, que popularizaram a locação de curta duração em cidades do mundo todo. Defensores da modalidade argumentam que ela gera renda, empregos e impulsiona o turismo. Já os críticos alertam para os impactos sobre a vida em condomínio e para o risco de substituição gradual dos moradores por visitantes temporários.
Turismo predatório em Barcelona
Em Barcelona, moradores protestam contra o turismo excessivo e associam o avanço das plataformas ao aumento dos preços dos imóveis. O ativista Daniel Pardo afirma que "a maioria dos turistas se relaciona com as cidades como um objeto de consumo" e diz que o fenômeno torna difícil manter "um espírito de comunidade". Na cidade espanhola, o grande problema é a falta de aluguéis para moradia. Lá, proprietários podem ganhar até quatro vezes mais com locações de curta duração do que com contratos tradicionais. Com menos oferta, o aluguel fica mais caro.
A posição das plataformas
O Airbnb e o Booking.com, as duas maiores plataformas, declararam que acompanham as discussões sobre regulamentação. "O Airbnb se posiciona hoje como esse ator que ajuda na absorção turística das cidades", diz Carla Comarella, diretora de Políticas Públicas da plataforma. O Airbnb argumenta ainda que o principal problema é a escassez de novas moradias e que a plataforma ajuda milhões a viajarem.
O barulho constante de malas e conversas nos corredores atrapalha a vida dos moradores, que convivem com o entra e sai de hóspedes. A guerra do aluguel por aplicativos divide opiniões e já chegou à Justiça em muitos condomínios.



