Presença de golfinhos em Noronha cai 59% em 2025, aponta estudo
Golfinhos em Noronha: presença cai 59% em 2025

Um estudo do Projeto Golfinho Rotador identificou uma queda de 59% na presença de golfinhos-rotadores em Fernando de Noronha em 2025, a menor ocupação da espécie no arquipélago desde o início do monitoramento, há mais de 30 anos. Os pesquisadores investigam as causas e apontam, entre as hipóteses, as mudanças climáticas, o aumento do turismo e a maior presença de tubarões-tigres.

Queda histórica na ocupação

Durante décadas, centenas de golfinhos-rotadores utilizavam a Baía dos Golfinhos, a Baía de Santo Antônio e a região Entre Ilhas para descansar, socializar e cuidar dos filhotes. Os animais eram vistos em cerca de 92% dos dias do ano. A partir de 2006, os pesquisadores observaram mudanças no comportamento, com redução do tempo de permanência nas áreas de descanso. Em 2025, a queda tornou-se evidente: pela primeira vez em mais de três décadas, o Projeto Golfinho Rotador registrou uma redução expressiva na ocupação das principais áreas.

O coordenador do projeto, oceanógrafo José Martins, destacou: "O dado mais importante não é apenas que observamos menos golfinhos. É que isso aconteceu depois de uma longa série histórica marcada por estabilidade. Quando um comportamento que se repetiu por tantos anos muda de forma consistente, a ciência precisa olhar para isso com muita atenção."

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Dados do monitoramento

Ao longo de mais de 30 anos, a equipe acumulou mais de 55 mil horas de observação na Baía dos Golfinhos, distribuídas em 5.407 dias de pesquisa. Na Baía de Santo Antônio e na região Entre Ilhas, foram registradas outras 28 mil horas. A série histórica permitiu comparar os dados de 2025 com registros anteriores. Na Baía de Santo Antônio e região Entre Ilhas, a média histórica era de 461 golfinhos por dia; em 2025 caiu para 258, redução de cerca de 45%. Na Baía dos Golfinhos, principal área de descanso, a média passou de 311 para 129 golfinhos por dia, queda de aproximadamente 59%.

As análises estatísticas indicam que a queda em 2025 difere das oscilações naturais observadas entre 2004 e 2024. "Quando analisamos mais de trinta anos de informações, conseguimos distinguir oscilações naturais de mudanças reais. Os resultados mostram que estamos diante de um evento diferente do que costumávamos observar em Fernando de Noronha", afirmou José Martins.

Possíveis causas

Os pesquisadores afirmam que ainda é cedo para apontar uma única causa. A mudança deve ser resultado da combinação de fatores ambientais. "O mais provável é que estejamos diante de uma combinação de fatores ambientais atuando ao mesmo tempo. Agora é necessário aprofundar as pesquisas para compreender o que está acontecendo", disse Martins. Além da redução na frequência, os cientistas alertam para a baixa diversidade genética da população de golfinhos da ilha, o que pode aumentar a vulnerabilidade da espécie.

Mudanças climáticas

O aquecimento do oceano pode alterar correntes marinhas e modificar a distribuição de organismos da cadeia alimentar. Com menos peixes, lulas e camarões disponíveis, os golfinhos podem usar Fernando de Noronha com menos frequência.

Tubarão-tigre

Outra hipótese é o aumento da presença de tubarões-tigres nas proximidades da Baía dos Golfinhos. Estudos anteriores identificaram a região como uma das com maior ocorrência desse predador. A maior presença de tubarões pode fazer com que os golfinhos permaneçam menos tempo na baía ou evitem o local. Os cientistas avaliam que os animais podem buscar áreas próximas ao Porto de Santo Antônio, onde a movimentação de embarcações tende a afastar os tubarões.

Turismo

O aumento do turismo também está entre os fatores analisados. Em 2025, o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha recebeu 139.901 visitantes, o maior número já registrado, superando o limite anual de 132 mil pessoas previsto no acordo de gestão compartilhada. O teto mensal de 11 mil turistas foi ultrapassado em oito meses do ano. O estudo não estabelece relação direta entre o recorde de visitantes e a redução dos golfinhos, mas os pesquisadores avaliam que o aumento da circulação de embarcações pode interferir em comportamentos importantes. Quando barcos atravessam grupos de golfinhos, podem interromper descanso, reprodução e amamentação, além de aumentar o estresse e o gasto de energia.

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Projeto Golfinho Rotador

Criado em 1990, o Projeto Golfinho Rotador desenvolve pesquisas e ações de conservação dos golfinhos em Fernando de Noronha, com apoio do Programa Petrobras Socioambiental. Além das pesquisas, promove oficinas culturais, incentiva o surfe entre jovens e realiza educação ambiental nas escolas da ilha.