Designer larga moda de luxo para plantar 5 mil mudas no centro de SP
Designer troca moda por reflorestamento no centro de SP

Aos 50 anos, o designer têxtil Eduardo Paziam abandonou uma carreira de contratos milionários e coleções lançadas em Paris, Nova York e Xangai para se tornar jardineiro voluntário no centro de São Paulo. Desde 2023, ele já plantou mais de 5 mil mudas nativas da Mata Atlântica por meio do projeto Pazipê, que visa recuperar o bioma original da região.

Do luxo à terra: a virada de vida

A mudança não foi repentina, mas resultado de um acúmulo de insatisfações. “Eu comecei a olhar para a indústria têxtil e ver que ela faz um uso excessivo de água. Além disso, responder cliente por WhatsApp me fazia sentir que eu estava atrasado para tudo, vivia angustiado, e me perguntei o que eu estava fazendo da minha vida”, desabafa. Essa virada coincidiu com a perda de sua mãe e o reencontro com o pai em Araçatuba, interior de São Paulo. Em uma conversa, o pai o confrontou, dizendo que o via como um impostor. “Foi uma facada nas minhas costas”, lembra Paziam.

Ele decidiu reavaliar a vida e percebeu que, com algumas mudanças, o dinheiro acumulado e investido ao longo dos anos duraria por um bom tempo. “Quando eu parei de trabalhar, eu fui curtir a vida. Ser jardineiro do centro é uma consequência das escolhas que eu fiz lá atrás”, explica.

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De Londres a São Paulo: o germinar do projeto

Livre da rotina da moda, Paziam viajou pela Europa, um país por mês durante um ano. Em Londres, fez um curso sobre jardins de chuva em Kew Gardens. De volta a São Paulo, descobriu que a Subprefeitura da Sé instalaria dois jardins de chuva na frente de seu prédio, na República. “No dia do plantio, eles falaram que aquilo era público, da população, que quem quisesse cuidar, poderia. E eu falei, pode deixar que eu cuido.” Mas nada vingou. Frustrado, partiu para a Ásia, incluindo quatro meses na floresta da Indonésia, além de Singapura, Austrália, Nepal, Butão e Índia.

“Foi uma viagem que mexeu muito comigo, que eu comecei a pensar ‘caramba! É muito mais legal ser do que ter’, e quando eu voltei pra casa eu falei: ‘eu vou fazer acontecer’”, conta. Ele passou a ter uma rotina puxada para cuidar das plantas. Moradores da Avenida Ipiranga e da Avenida São Luís pediram que ele cuidasse dos canteiros. Foi quando apareceu Francisco, um jovem venezuelano que se tornou seu principal parceiro, incentivando-o a priorizar espécies típicas da Mata Atlântica. “Aquele menino que era para ser meu assistente foi meu professor”, diz Paziam.

Nasce o Pazipê: um ipê amarelo como símbolo

Em 23 de junho de 2023, ele plantou um ipê amarelo que tinha em casa – que deu origem ao nome do projeto: Pazipê. “Antes eu era o Eduardo Paziam, hoje, com 56 anos, eu sou o Pazi”, conta. Atualmente, são 33 canteiros na Av. São Luís, dois jardins de chuva na Av. Ipiranga e um pomar na Praça Dom José Gaspar.

Rotina de trabalho e financiamento colaborativo

Pazi começa o dia às 5h30, com botina de borracha e roupas de luxo antigas. A primeira tarefa é recolher lixo, depois regar os canteiros e, à tarde, plantar novas mudas – em média dez por dia. “Hoje eu trabalho dez vezes mais do que quando eu trabalhava, mas enquanto eu tiver força eu vou continuar”, afirma. A manutenção é financiada por moradores, comerciantes e empresas privadas, por meio do programa “Adote uma Praça”. Ele também conta com “guardiões” que regam, doam mudas e avisam sobre danos.

Um deles é Celso Jamelo, dono da Bankatelier, na frente do pomar “Jardim das Delícias”, com mais de 20 espécies. “Ser guardião exige presença, respeito e responsabilidade. Muito mais do que ficar cobrando, falar que não pode, a gente convida as pessoas a participarem”, diz. “A praça realmente estava intransitável, as pessoas tinham medo de passar aqui em qualquer horário e agora você vê gente frequentando.”

Satisfação pessoal acima do lucro

Segundo Pazi, seu maior ganho é a satisfação pessoal. “Eu não ganho nada material, pelo contrário, materialmente eu só gasto. Já foram mais de 80 mil reais dos meus recursos que usei para fazer tudo isso, além de tempo, energia e o final da juventude que me resta”, conta. “Mas eu espero entrar na avenida São Luís daqui 10 anos e ver uma floresta.”

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Espécies nativas e impacto ambiental

Para Pazi, a escolha das espécies não é um detalhe estético. “Aqui, antigamente, era Mata Atlântica e a gente não pode trazer uma planta de outro bioma porque, senão, ela se torna uma exótica e ter um comportamento invasor: replicar descontroladamente, roubar os espaços das nativas e até levar espécies à extinção”, explica. Plantas ornamentais não trazem benefício ambiental: não atraem pássaros nem abelhas, não fazem sombra adequada nem reduzem ruído ou poluição. Por isso, ele defende que espécies invasoras sejam removidas e transformadas em adubo.

Durante a visita da reportagem, a diferença já era visível: pássaros, abelhas e borboletas circulavam em pleno centro de São Paulo. “Eu não quero deixar para geração futura o que eu recebi das gerações passadas. Tem gente que nem nasceu e vai ser beneficiada por isso que eu estou fazendo. Para mim, isso é fascinante”, conta.

A ambição ultrapassa os canteiros da São Luís: ele imagina a cidade como um grande corredor verde, com pássaros saindo da Avenida Vieira de Carvalho, passando pela República, atravessando a floresta do Pazipê e chegando ao pomar da Praça Dom José Gaspar. Ao ser questionado se sente falta da vida anterior, foi categórico: “O luxo passou a ser interpretado de outra forma.”