Por que o Brasil não sofre com grandes terremotos como os vizinhos?
Brasil é poupado de grandes terremotos; entenda o motivo

O terremoto que atingiu a Venezuela na quarta-feira (24) e matou mais de 180 pessoas foi registrado na escala Richter como um sismo de magnitude 7,2 – um dos mais fortes já ocorridos no continente. Apesar do abalo fortíssimo no vizinho ao norte, o Brasil foi quase totalmente poupado, com apenas leves tremores sentidos em cidades como Manaus ou Belém. O país parece ser, em geral, poupado de terremotos, mas a ciência mostra que não é bem assim.

Localização geológica privilegiada

O que acontece é que o Brasil está localizado no meio de uma placa tectônica, ou seja, longe das bordas que estão em constante atrito com outras na crosta terrestre. Tecnicamente, o país está no centro da chamada placa Sul-Americana. Já os países vizinhos, especialmente os mais próximos à cordilheira dos Andes, têm em seus territórios bordas de duas placas – e é desses encontros que ocorrem os terremotos, alguns com consequências catastróficas.

Como ocorrem os terremotos

Para entender isso, é preciso compreender como os terremotos ocorrem. A crosta terrestre é formada por gigantescas placas rochosas, chamadas placas tectônicas. "Essa parte mais da superfície da Terra seria algo semelhante a um casco de tartaruga, com várias peças se encaixando", compara o geógrafo e historiador Sergio Ribeiro Santos, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Elas se movimentam a velocidades que podem chegar a 10 centímetros por ano. A placa Sul-Americana, em alguns trechos, pode ter até 200 quilômetros de espessura.

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O geógrafo Sergio de Moraes Paulo, mestre em geografia pela USP, faz uma analogia com uma casca de ovo fragmentada. "Como a parte de baixo, o manto, que é como se fosse a clara do ovo, está se mexendo, as placas também se mexem", explica. Esse movimento se torna mais notável nas chamadas "áreas de contato" – o limite entre uma placa e outra.

Limites convergentes e a Cordilheira dos Andes

"O Brasil está bem no meio da placa tectônica, e os terremotos acontecem muito mais próximos dos extremos das placas, nos limites convergentes. Ficamos distantes desses limites", explica o geógrafo Anderson Andrade, pesquisador no Instituto Mackenzie. "Os países vizinhos ao Brasil, principalmente os mais próximos à cordilheira dos Andes, estão muito perto desses limites convergentes." O que ocorre nesses países é o encontro das placas Sul-Americana e de Nasca, na costa oeste da América do Sul. "Ali temos um movimento mais intenso e os abalos sísmicos. Esses abalos podem até chegar ao Brasil, mas como estamos no meio da placa, eles chegam mais fracos", diz Paulo.

Segundo Santos, foi exatamente a fricção entre essas duas placas que deu origem à Cordilheira dos Andes. "Os países andinos da América do Sul, logo a oeste, estão sobre o contato entre duas grandes placas tectônicas", sintetiza o engenheiro Antonio Eduardo Giansante, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie. "Qualquer movimento entre ambas causa tremores e, se for mais intenso, tem-se um terremoto."

Terremotos brasileiros

Dados do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP mostram que o Brasil teve cerca de 100 terremotos no século. Nenhum deles de forte intensidade – na maioria, seus efeitos foram imperceptíveis pela população. O mais grave do Brasil ocorreu em 1955, quando em algumas localidades do Mato Grosso foram registrados 6,6 graus na escala Richter. Na mesma ocasião, localidades do Espírito Santo chegaram a registrar 6,3 graus. Em 1980, houve um terremoto registrado no Ceará com 5,2 graus. Três anos mais tarde, os sismógrafos marcaram 5,5 graus no Amazonas.

Neste século, alguns episódios marcantes também foram percebidos. Em 2007, 6,1 graus de abalo sísmico foram percebidos por moradores na divisa entre Acre e Amazonas. No mesmo ano, em Minas Gerais, houve um sismo de 4,9 graus. Em abril de 2008, 5,2 graus foram registrados em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina. O caso mais recente foi em 2018, quando reflexos de um terremoto na Bolívia foram percebidos em algumas regiões. Segundo a USP, os últimos tremores ocorreram em 11 de junho deste ano, quando três pequenos terremotos ocorreram em Tucuruí, no Pará – o maior deles, com 3,5 graus de magnitude.

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A repercussão dos tremores é proporcional à intensidade deles. "Mas acabamos por ter notícias apenas daqueles mais intensos, que geram imagens impressionantes", conclui o geógrafo Paulo.