O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), ordenou o bloqueio de até R$ 6,15 milhões em bens do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (Republicanos). A decisão, assinada em 6 de julho, decorre de investigação sobre o mau uso de emendas parlamentares. Cunha é suspeito de ter direcionado pelo menos 21 indicações de verbas mesmo sem exercer mandato, com o aval do atual presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), segundo a Polícia Federal (PF).
Investigação aponta atuação como 'parlamentar informal'
Assim como ocorreu com o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, cujo patrimônio também foi congelado por Dino, Cunha negociou o envio de verbas com a servidora Mariângela Fialek, conhecida como Tuca. Para a PF, Fialek atuava como operadora de um novo "orçamento secreto" e contava com o aval de Motta para favorecer Cunha, que é padrinho político do atual presidente da Câmara.
Na decisão, Dino suspendeu imediatamente a execução de todas as despesas públicas ligadas às emendas sob suspeita. Nos diálogos interceptados pela PF, Cunha demonstra interesse particular em repasses para Minas Gerais, estado pelo qual pretende concorrer à Câmara neste ano. As emendas foram direcionadas no fim de 2025, totalizando o mesmo valor milionário informado na ordem de bloqueio.
Diálogos revelam controle direto sobre emendas
"Consoante atestam diálogos em aplicativos de mensagens e numerosas planilhas compartilhadas entre os investigados, Eduardo Cosentino da Cunha, sem exercer mandato parlamentar, parece ter atuado, até muito recentemente, como mandante do (re)direcionamento de valores públicos, especialmente em prol de sua anunciada campanha ao cargo de deputado", escreveu Dino.
Em um dos diálogos extraídos do celular de Fialek, Cunha reclama de cidades mineiras: "Boa tarde, desculpa, mas eu não aguento mais esses mineiros enrolados. Troca a de Governador Valadares (MG) por essa, pois lá também criaram caso pedindo ofício etc. É mais fácil trocar". Em setembro de 2025, diante de conflito sobre a autoria de emenda destinada a Manhuaçu (MG), ele determinou: "Bom dia. Trocar Manhuaçu por essas para acabar com a confusão", indicando o Fundo Municipal de Saúde de Governador Valadares e a Associação Hospital Belizário Miranda.
PF aponta 'altíssimo grau de promiscuidade'
A PF afirma que há indícios de que Fialek atuava sob ordens da presidência da Câmara. "Tudo indica que Tuca (Fialek) contava com pleno aval da presidência da Casa para promover os desvios de emendas em favor de Cunha, intensificando um altíssimo grau de promiscuidade na deliberação do chamado orçamento secreto", diz a corporação.
"O quadro é absolutamente grave no ponto em que Eduardo Cunha não exerce cargo de deputado desde setembro de 2016", afirmou a PF em representação enviada a Dino. A investigação aponta que Cunha usou o deputado Gilberto Abramo (Republicanos-MG) como autor de emendas. Em mensagem a Fialek, Cunha disse: "Oi. Se puder. Tou com um problema lá em uma das emendas de Manhuaçu que o pessoal lá é inimigo e estão dizendo que é do Nikolas. Como pôs no Gilberto Abramo, preciso de um ofício dele dizendo que essa emenda é de autoria dele".
Defesa de Cunha nega irregularidades
Em nota, a defesa de Cunha negou que ele tenha exercido um "mandato clandestino", alegou que não participou formalmente da apresentação das emendas e disse que buscará acesso integral à ação para contestar as medidas. "Eduardo Cunha sempre pautou sua vida pública pelo compromisso ético e probidade, respeitando as normas legais, inclusive, enquanto exerceu seu mandato parlamentar. Deste modo, a defesa rejeita a tentativa de equiparar automaticamente a legítima interlocução política ao exercício clandestino de mandato", diz o comunicado.
Procurado, Motta não se manifestou. No sábado, ele já havia dito que a decisão de Dino que bloqueou bens de Valdemar era uma tentativa de "criminalizar a política" e não identificou "desvio, abuso ou aplicação irregular de verbas públicas". Abramo também não se manifestou.



