A Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) deflagraram na manhã desta quinta-feira (25) a Operação Última Parada, que investiga um esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) no transporte público da capital paulista. Foram cumpridos cinco mandados de prisão temporária e 103 de busca e apreensão. Entre os presos estão o vereador da capital Senival Moura (PT), o presidente da Transunião Transportes S.A., Lourival Monário, e outros suspeitos de integrar a facção criminosa. Os investigados são acusados de organização criminosa, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações públicas.
Operação atinge diretoria da Transunião
A diretoria da Transunião foi afastada e a Prefeitura de São Paulo foi comunicada para que tome as medidas administrativas cabíveis. Os mandados estão sendo cumpridos em endereços da cidade de São Paulo, região metropolitana e no município de Extrema (MG). A ação é conduzida pelo Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MP-SP.
De acordo com dados do SPUrbanuss, sindicato das empresas de ônibus da capital, a Transunião opera 51 linhas de ônibus e transporta 389 mil passageiros por dia, atuando principalmente na Zona Leste. Para cortar a influência dos investigados, a Justiça determinou o afastamento imediato de todos os atuais diretores e administradores. Como o transporte é essencial, a SPTrans foi notificada para garantir a continuidade do serviço, seja por intervenção direta ou repasse das linhas para outras viações.
Morte de ex-presidente desencadeou investigação
O inquérito começou a partir da investigação do assassinato de Adauto Soares Jorge, ex-presidente da Transunião, executado em 2020. Documentos manuscritos conhecidos como "salves" do PCC revelaram que Adauto e o vereador Senival de Moura – apontado como o verdadeiro controlador da empresa – haviam sido condenados à morte por supostos desvios de valores da organização criminosa. "A facção teria descoberto, então, que Adauto desviava dinheiro da empresa para subsidiar uma espécie de 'caixa dois' para as eleições de 2020, privilegiando diretamente Senival em sua campanha à reeleição como vereador de São Paulo", diz trecho da manifestação do MP.
As investigações apontam que Senival concordou com a execução de seu braço-direito e acabou sendo "perdoado" em razão de sua influência política e capacidade de ressarcir o prejuízo financeiro causado à facção. Após o crime, o PCC teria nomeado Lourival de França Monário (vulgo "Orelha" ou "Lori") e Jair Ramos de Freitas (vulgo "Cachorrão") para assumir os cargos de presidente e diretor da Transunião e garantir o fluxo financeiro para a facção. Jair Ramos de Freitas é apontado pela polícia como o executor dos disparos que mataram Adauto.
Evidências do esquema de lavagem de dinheiro
Evidências reunidas demonstram que a viação – que apenas no ano de 2025 recebeu mais de R$ 300 milhões do sistema de transportes paulistano – vinha sendo sistematicamente utilizada como engrenagem de lavagem de dinheiro do crime organizado. Veja quem são os alvos dos mandados de prisão:
- Senival Moura: vereador do PT, apontado como o detentor do "controle fático" da estrutura financeira da Transunião;
- Lourival Monário ("Orelha"): atual presidente, acusado de ser nomeado pelo PCC para garantir o escoamento de recursos ilícitos;
- Jair Ramos de Freitas ("Cachorrão"): diretor informal e apontado como executor do homicídio de 2020;
- Leonel Moreira Martins ("Cabeça Branca"): supervisor operacional que atuava como interlocutor direto do PCC dentro da empresa, transmitindo ordens da facção;
- Devanil de Souza Nascimento ("Sapo"): motorista e homem de confiança de Senival, identificado como partícipe no plano de execução de Adauto.
Como funcionava o esquema
De acordo com o MP-SP e a Polícia Civil, a Transunião contava com um núcleo paralelo que tomava as decisões operacionais e autorizava a transferência de grandes valores para criminosos ligados ao PCC. A fraude atingiu até mesmo a constituição da empresa: a investigação aponta que a mudança societária teve origem criminosa, com o capital social saltando de pouco mais de R$ 100 mil para mais de R$ 50 milhões sem comprovação de origem. Essa elevação fraudulenta permitiu à Transunião participar e vencer licitações da Prefeitura de São Paulo para operar linhas de transporte público.
Bloqueio milionário e bens apreendidos
A Justiça determinou o sequestro de uma fortuna ligada aos investigados e à companhia. A lista de bens bloqueados inclui: R$ 194 milhões em contas bancárias, 117 veículos, 21 imóveis e 3 embarcações.
Conexões com a máfia italiana
Os investigadores constataram que o esquema da Transunião tem ligação com outras investigações, como a Carbono Oculto, a Vérnix e a Operação Mafiusi. Esta última, conduzida pela Polícia Federal no Paraná, focou no tráfico internacional de drogas e expôs a ligação direta entre o PCC e a máfia italiana 'Ndrangheta. A ofensiva consolida ações recentes contra a infiltração de facções nos contratos públicos da capital. Em 2024, o Gaeco deflagrou a Operação Fim da Linha, que desarticulou dois grupos suspeitos de lavar dinheiro de tráfico através da Upbus e da Transwolff. Juntas, essas empresas transportavam cerca de 700 mil passageiros por dia e, apenas em 2023, receberam mais de R$ 800 milhões em remuneração da prefeitura.



