O Ministério Público de Roraima (MPRR) protocolou na Justiça um pedido de afastamento imediato do delegado da Polícia Civil Alexandre Henrique de Matos Lima, de 50 anos. O órgão aponta que o investigado acumula quase 50 procedimentos disciplinares e criminais desde 2005, por crimes como abuso de autoridade, ameaça, injúria e violência doméstica.
Padrão de abuso e misoginia institucional
A representação, encaminhada pela Promotoria de Justiça Militar e de Controle Externo da Atividade Policial em 3 de julho à Vara de Garantias da Comarca de Boa Vista, sustenta que o delegado mantém um padrão de abuso de autoridade e misoginia institucional. O documento, ao qual o g1 teve acesso, detalha quatro episódios recentes que embasam o pedido.
Episódios recentes
O primeiro caso ocorreu em 28 de julho de 2025, no estacionamento da Delegacia-Geral. O delegado estacionou o carro particular em vaga reservada para viaturas. Uma agente pediu que ele retirasse o veículo, mas ele se recusou a se identificar e ofendeu a policial, chamando-a de "vagabunda" e dizendo: "Essa novata está pensando que está falando com quem?"
Em 12 de junho de 2026, em um condomínio no bairro Caçari, zona Leste de Boa Vista, Alexandre teria bloqueado a via interna com o carro, causando danos a um veículo de morador, e se recusado a assumir a responsabilidade. Ele mobilizou cinco policiais armados e viaturas oficiais para buscar imagens de segurança, configurando desvio de finalidade. Dias depois, uma assistente administrativa informou sobre a proibição de uso do elevador social para mudança; o delegado a chamou de "vagabunda" e "filha da puta", e também ofendeu uma auxiliar de serviços gerais. Quando a assistente tentou ligar para o síndico, ele tomou o telefone de suas mãos. As funcionárias relataram que ele dizia manter fuzis no carro. A postura mudou apenas quando o subsíndico se identificou como general do Exército.
Em 16 de junho, em um hotel no bairro Mecejana, o delegado chamou um empresário de "monstro" e "gigante" na presença de funcionários e hóspedes, afirmou ser delegado e disse que enviaria viaturas. Entre 10 e 15 policiais armados foram acionados sob alegação de que o empresário estaria armado, mas buscas no quarto não encontraram nada.
Violência doméstica e histórico
A representação também cita um caso de violência doméstica contra a esposa do delegado, em junho de 2026, que resultou em medida protetiva de urgência. O documento alerta que a manutenção do delegado no cargo, com porte de arma e acesso a sistemas de segurança, representa risco a subordinadas, trabalhadoras civis, cidadãos e à própria vítima.
Desde 2005, Alexandre responde ou respondeu a pelo menos 47 procedimentos disciplinares e criminais, incluindo processos administrativos, sindicâncias e inquéritos por abuso de autoridade, ameaça e extorsão. Em 2007, foi investigado por supostamente extorquir R$ 10 mil para liberar um preso. Em 2013, respondeu a 11 termos circunstanciados por injúria e ameaça contra diversas vítimas, entre elas o então delegado-geral adjunto. Em 2015, foi alvo de sindicância por abuso de autoridade contra um migrante venezuelano.
Parte dos procedimentos foi arquivada ou resultou em absolvição na esfera administrativa, o que, segundo o MPRR, contribuiu para a percepção de intangibilidade do investigado. "Essa ausência histórica de resposta cautelar, por si, contribuiu para consolidar no investigado a percepção de intangibilidade que permitiu a escalada ora relatada, migrando de um padrão de abuso de autoridade genérico para um padrão consolidado e recente de misoginia institucionalizada", afirma o órgão.
Pedidos e posicionamento
Além do afastamento, o MPRR requereu a suspensão das funções públicas, do porte de arma, o recolhimento do armamento funcional, o bloqueio de acesso aos sistemas da Polícia Civil, a proibição de contato com as vítimas e de acesso às unidades policiais.
O g1 procurou o delegado, mas não obteve resposta. A Polícia Civil de Roraima informou que o caso tramita em segredo de justiça e que "todas as medidas e determinações judiciais, no âmbito da Corporação, foram adotadas tempestivamente".



