A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) começou a discutir, no início de julho, a implantação de rotas de voo por instrumentos (IFR) para helicópteros na cidade do Rio de Janeiro, após a colisão entre duas aeronaves no Recreio que matou seis pessoas, incluindo o cantor americano Oliver Tree. O acidente ocorreu em 14 de junho e foi registrado por testemunhas.
O que são rotas IFR?
Voo por instrumentos é a técnica de pilotar uma aeronave guiando-se exclusivamente pelos instrumentos de bordo e pelas orientações do controle de tráfego aéreo, sem a necessidade de referências visuais externas. Atualmente, o tráfego de helicópteros ocorre em corredores pré-definidos, e a responsabilidade de manter distância entre as aeronaves é dos pilotos, feita de forma visual. Todos os pilotos devem sintonizar a mesma frequência de rádio e informar prefixo, direção, altura e manobras que alterem a rota.
Diante do crescimento da frota, especialistas em segurança aérea defendem maior rigor na fiscalização da conduta dos pilotos e mudanças nas regras para tornar o espaço aéreo fluminense mais seguro. O 1º Encontro Técnico do Grupo Brasileiro de Segurança Operacional de Helicópteros (BHEST) reuniu representantes de diversos segmentos, incluindo operadores de táxi aéreo, empresas de transporte offshore, Petrobras, órgãos de segurança pública, Corpo de Bombeiros, empresas de consultoria e representantes do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea).
Aumento da frota e incidentes
De acordo com a Anac, o Estado do Rio possui 319 helicópteros registrados, contra 247 em 2023 – um aumento de 29% em três anos. Em São Paulo, o total ultrapassa 400. Apesar disso, o maior número de pousos e decolagens ocorre no Aeroporto de Jacarepaguá: em maio, foram 7.903 movimentos, contra 2.642 no Campo de Marte, em São Paulo.
Com o aumento do tráfego, o número de incidentes no Rio superou o de São Paulo. Em 2025, foram registrados 142 incidentes com helicópteros no Rio – uma média de um caso a cada três dias – enquanto São Paulo contabilizou apenas 11 ocorrências no ano. Os registros no Rio representam 71% dos incidentes com helicópteros no país em 2025, incluindo falhas de sistemas, incursão em pista, colisão com aves e quedas. Neste ano, já são 61 incidentes no Rio e seis em São Paulo, segundo o Sistema de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Sipaer).
Reuniões com moradores
Os transtornos causados pelo ruído de aeronaves no Aeroporto de Jacarepaguá e em helipontos da região, além da colisão de 14 de junho, motivaram cinco reuniões de moradores com representantes do Decea e da Anac. A última foi realizada no final do mês. Segundo a Anac, foram discutidos métodos para reforçar o cumprimento da altitude mínima de voo na Avenida das Américas, buscando maior observância dos parâmetros normativos. O Aeroporto de Jacarepaguá está desenvolvendo um sistema de monitoramento para identificar quando a altura não é respeitada e informar as ocorrências à Petrobras, que pode aplicar penalidades às aeronaves que prestam serviço a suas plataformas.
Em relação aos helipontos privados, a Anac afirma que foram apontados fatores que podem contribuir para o barulho, e estudos serão feitos para reduzir o impacto. "É importante esclarecer que colocar essas medidas em prática depende primariamente dos responsáveis pelos aeródromos e helipontos envolvidos e do Decea. A Anac participa das discussões dentro do que cabe à sua atuação, ajudando a aproximar os envolvidos e acompanhando o assunto de perto", completa a nota.
Delair Dumbrosck, presidente da Câmara Comunitária da Barra da Tijuca, queixou-se de que os encontros têm sido infrutíferos: "Não evoluiu nada. Algumas pessoas têm achado essas reuniões inócuas. O Decea diz que vai tomar providência, multar e não faz nada." O Decea foi procurado, mas não respondeu. Dumbrosck reclama dos ruídos e da insegurança, e moradores cobram um protocolo e regulamentação dos voos de helicópteros na região.
O deputado Hugo Leal, presente no último encontro, prometeu: "Vamos seguir em cima deste tema como já temos feito há mais de um ano. Só vamos parar quando esses problemas estiverem resolvidos."
Relembre o acidente
A colisão entre os dois helicópteros no ar do Rio de Janeiro ganhou repercussão internacional. Uma das aeronaves, um Bell 206B Jet Ranger (prefixo PP-MAC), transportava cinco pessoas: o piloto Alexandre Souza; o youtuber argentino Gaspar Prim Díaz (Gaspi); o produtor musical brasileiro e DJ Lucas Brito Chaves (Lucas Frota); o diretor de videoclipes argentino Lucas Vignale; e o cantor americano Nickel Oliver Tree. A bordo do segundo helicóptero, um Eurocopter AS350 B2 (Airbus H125, conhecido como Esquilo), de matrícula PR-DJJ, estava o piloto Charles Marsillac.
A aeronave com cinco pessoas decolou do Aeroporto de Jacarepaguá às 8h51 com destino ao Heliponto Piratas Mall, em Angra dos Reis. A outra vinha do Aeroporto Santos Dumont, onde deixou um passageiro às 8h46, e seguia para Guaratiba. Pouco antes das 9h do dia 14 de junho, um domingo, as aeronaves colidiram no ar e caíram no quarteirão da Avenida das Américas entre as ruas Beth Lago e Rivadávia Campos. Moradores relataram ter ouvido uma explosão.
Os dois helicópteros estavam em situação normal de aeronavegabilidade, segundo a Anac, e os pilotos eram experientes. O helicóptero com cinco pessoas caiu no estacionamento de uma concessionária BYD, provocando incêndio que se alastrou pelas baterias dos veículos, gerando explosões secundárias. Treze carros ficaram destruídos. A outra aeronave caiu a cerca de 100 metros de distância, sobre dois carros no mesmo estacionamento. Pedaços dos helicópteros se espalharam e atingiram prédios; parte da cauda de um deles foi arremessada até o terraço de um edifício residencial vizinho, e em outro prédio dois vidros de uma varanda quebraram.



