Das dez redações que tiraram a nota máxima no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2025, quatro geraram grandes divergências entre os professores da banca avaliadora. Um dos candidatos, do Recife, recebeu 600 pontos do corretor 1 e 760 do corretor 2. No boletim final, por decisão de uma banca extraordinária, o aluno ficou com 1.000 pontos. Nesta reportagem, entenda por que distorções tão significativas podem ocorrer e quais as possíveis explicações para que um mesmo texto seja avaliado de maneiras tão diferentes.
Como uma distorção tão grande foi possível?
No caso real do aluno que tirou 600 e 760, mas ficou com mil, o processo foi o seguinte: a pontuação vai sempre de 0 a 1.000. Como a diferença entre o corretor 1 e o corretor 2 foi de mais de 80 pontos (760 - 600 = 160), as regras estabelecem que um terceiro profissional deve ser convocado. Nesse caso, o corretor 3 deu 960 pontos, mais uma nota fora do padrão das anteriores. Quando continua havendo uma discrepância significativa entre os três corretores, é convocada a “quarta instância”: uma banca corretora que tem acesso às notas anteriores e que precisa dar o veredito. A nota dessa banca é incontestável, e as dos outros três corretores são descartadas. Resultado: a “quarta instância” decidiu que o aluno tiraria nota mil.
Ao g1, o Inep afirmou que essa última banca é “altamente qualificada, composta por doutores e especialistas” e que “o procedimento garante que a nota final não seja fruto de subjetividade, mas de uma convergência técnica consistente”.
O que explica a variação de 600 a 1000 pontos?
De acordo com professores que fizeram parte da banca avaliadora no Enem 2025 e com docentes de cursinhos, pequenas variações são esperadas, mas divergências como as que ocorreram indicariam problemas na capacitação dos profissionais. Os motivos seriam: avaliação diferente de 'repertórios de bolso' (competência 2) e mudanças nas regras de correção.
Avaliação diferente de repertórios de bolso
No manual do candidato, o Inep reforçou que os repertórios socioculturais (referências a autores, livros ou filmes, por exemplo) não poderiam ser “de bolso” – citações genéricas sem contextualização seriam penalizadas na competência 2. Os critérios para classificar um repertório como válido ou “de bolso” parecem ter variado significativamente entre corretores. Houve discrepâncias que chegaram a 80 pontos entre diferentes avaliadores para o mesmo texto.
Por exemplo, o aluno 5, de Fortaleza: o avaliador 1 e o avaliador 4 atribuíram 200 pontos para a competência 2, enquanto os avaliadores 2 e 3 deram apenas 120 pontos. Em outra situação, com o aluno 7, de Lauro de Freitas (BA), as notas na C2 variaram de 120 a 200. Um dos repertórios usados por esse candidato foi: “Acerca disso, Achille Mbembe, filósofo camaronês, afirma, a partir de seu conceito de 'Necropolítica', que o Estado decide quem vive e quem é destinado a um projeto de morte. (...)”. Para a banca final, a citação foi pertinente e conectada de maneira apropriada ao tema do envelhecimento. Antes, outro corretor descontou 80 pontos.
“Uns [corretores] foram orientados de uma forma mais rígida — em relação às competências 2 e 3, principalmente. Outros ignoraram e corrigiram não penalizando tanto os repertórios com problemas”, afirma uma professora da banca corretora do Enem 2025. Outro profissional atribui as divergências à falta de clareza nos cursos preparatórios: “Ficou subjetiva a correção. Acredito que esse formato de fazer um curso presencial para os professores, com uma pessoa falando para 20 ou 30 corretores, isso no Brasil todo, gera discrepâncias. Uma formação que fosse totalizante, única, seria melhor.”
Mudança nas regras de correção
Em fevereiro de 2026, o g1 revelou que as redações do Enem 2025 haviam sido corrigidas a partir de regras diferentes das edições anteriores. Um documento extra, enviado por e-mail aos corretores depois dos treinamentos presenciais, passou a estabelecer que a competência 2 deveria dialogar com a 3. Ou seja, repertórios socioculturais avaliados de maneira negativa passaram a ser punidos em duas competências, não mais em uma.
Em dois casos de nota mil, os corretores atribuíram, para o mesmo texto, pontuações que variaram de 120 a 200 pontos na C3. No exemplo do aluno 5, enquanto o terceiro avaliador atribuiu 120, o quarto avaliador deu a nota máxima. Thiago Braga, gestor de Linguagens do colégio e autor do sistema pH, reforça que o problema parece ter ocorrido no processo de preparação dos corretores: “Certamente há alguma relação entre essas mudanças posteriores. Isso levanta perguntas da sociedade: será que todos os corretores receberam essas mudanças? Aqui, identificamos um problema de gestão grave que não pode acontecer novamente.”



