Rota migratória de cubanos por Roraima: resgates superam 225 em 2026
Rota migratória de cubanos por Roraima: 225 resgates em 2026

Em 2026, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) resgatou 225 cubanos vítimas de coiotes em Roraima, número mais que o dobro do total registrado em 2024 e 2025, que somam 97 resgates. Os dados, fornecidos pela corporação, revelam o crescimento expressivo do fluxo migratório ilegal de cubanos pela fronteira com a Guiana.

Rota clandestina e exploração financeira

A principal rota migratória parte de Havana, capital de Cuba, com destino a Georgetown, capital da Guiana. De lá, os migrantes seguem para Lethem, cidade guianense na fronteira com o Brasil, onde cruzam o rio Tacutu em botes até Bonfim, em Roraima. Nesse trajeto, os cubanos são aliciados por coiotes, que cobram até US$ 10 mil (cerca de R$ 50 mil) pela viagem clandestina até Boa Vista, mesmo existindo a possibilidade de solicitar refúgio de forma legal e gratuita.

“Espalham informações falsas, fazem ameaças e convencem essas pessoas de que precisam realizar uma travessia clandestina”, afirmou o agente da PRF Isaías Magalhães, que participou da maioria dos resgates. A desinformação é um dos pilares do esquema, segundo ele.

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Abandono e riscos na travessia

Ávila Basulto, de 28 anos, foi um dos 189 cubanos resgatados entre 8 e 11 de junho. Ele pagou US$ 300 (cerca de R$ 1,5 mil) para ser transportado de Lethem a Boa Vista, mas foi abandonado na estrada. “Depois que cruzamos o rio, os responsáveis pela viagem nos dividiram em pequenos grupos e nos colocaram em táxis. Os motoristas fugiam da polícia e, em determinado momento, nos abandonaram”, relatou. Basulto disse que não sabia que poderia solicitar refúgio gratuitamente à Polícia Federal.

Evelio Vázquez, de 45 anos, cubano que criou informalmente uma associação para apoiar conterrâneos em Boa Vista, descreveu a travessia como “a pior experiência da minha vida”. O mecânico Thomas Joel Franco passou cinco dias praticamente sem comer nem dormir durante a viagem entre Georgetown e o Brasil. “Tomava muito pouca água e comia bolacha para conseguir seguir caminhando, passando por poças d'água, rios e todo tipo de lugar”, disse.

Crise em Cuba impulsiona migração

Cuba enfrenta uma crise econômica e energética que se agravou nos últimos anos. A escassez de energia compromete hospitais, fechou escolas e repartições públicas e afeta o turismo. “O objetivo de quase todo jovem é conseguir sair do país. Você passa até 36 horas sem energia para ter apenas duas horas de luz. Não é uma vida que eu desejaria para ninguém”, explicou Eliezer Pantoja, de 23 anos, que vive em Roraima há quatro meses.

O pesquisador João Carlos Jarochinski, da Universidade Federal de Roraima (UFRR), avalia que as restrições migratórias em Cuba favorecem a atuação dos coiotes. “Se compararmos uma viagem regular com uma organizada por coiotes, o custo da travessia irregular costuma ser muito maior. Mesmo assim, essas pessoas conseguem vender esse serviço porque os migrantes têm medo de chegar ao destino e não conseguir entrar no país.”

Falta de estrutura de acolhimento

Em Pacaraima, principal porta de entrada de venezuelanos, a Operação Acolhida, força-tarefa do Exército criada em 2018, oferece acolhimento e interiorização. Em Bonfim, não há estrutura similar. Após o resgate, os cubanos são encaminhados à Polícia Federal em Boa Vista, onde são identificados e multados em R$ 100 por entrada irregular, sendo liberados em seguida.

Jarochinski critica a ausência de atendimento mais efetivo: “O Brasil sabe que esse fluxo migratório existe, porque essas pessoas procuram regularização em Boa Vista. No entanto, não há uma estrutura de atendimento mais efetiva.”

Evelio Vázquez avalia que a demanda justifica a criação de um espaço específico para atender migrantes cubanos. “Precisamos fortalecer nossas organizações para mostrar nossas necessidades e nossa vontade de contribuir com a sociedade brasileira.” Ele criou um grupo no WhatsApp que reúne mais de 380 cubanos, onde compartilha informações para combater a desinformação. “Os coiotes dizem que o cubano não pode entrar legalmente no Brasil, que será preso ou deportado. Como chegamos sem conhecer a legislação, acreditamos nessas informações.”

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Resposta do governo

O governo federal informou que os migrantes cubanos têm acesso às políticas públicas voltadas à promoção de direitos e integração social. Desde o início de 2026, cerca de 60 cubanos em situação de vulnerabilidade procuraram atendimento no Alojamento de Trânsito da Assistência Social, em Roraima. O g1 questionou o governo sobre medidas para ampliar a assistência, mas não obteve retorno até a publicação. O governo da Guiana também foi procurado, sem resposta.