Piracicaba (SP) enfrenta um déficit de famílias acolhedoras para crianças e adolescentes afastados de suas famílias de origem. Atualmente, o município conta com apenas sete famílias cadastradas no serviço 'Família Acolhedora', número insuficiente para cobrir a demanda local. Para atender todas as crianças aptas ao programa que ainda vivem em abrigos tradicionais, seriam necessárias pelo menos oito novas famílias voluntárias.
O que é o serviço Família Acolhedora?
O Família Acolhedora é uma medida de proteção provisória para crianças e adolescentes que precisam ser afastados temporariamente de suas famílias de origem. Por lei, o acolhimento não deve ultrapassar 18 meses. Durante esse período, uma equipe de assistentes sociais e psicólogos acompanha tanto a família de origem quanto a família acolhedora e a criança. O objetivo principal é evitar que a criança permaneça em um abrigo institucional enquanto sua família de origem é reabilitada.
Como funciona o programa em Piracicaba?
Especialistas do serviço em Piracicaba, consultados pela EPTV, afiliada da Globo, explicam que o processo inclui entrevistas e análise de documentos dos voluntários. O psicólogo Reginaldo Cícero detalha: 'Com a família de origem, fazemos a reabilitação para que ela seja novamente capaz de buscar a guarda da criança. Trabalhamos toda a questão social e psicológica dessas famílias. Com a família acolhedora, fazemos orientações, visitas domiciliares, vamos até a casa dessa família para ver como está a criança, por exemplo.'
Dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento apontam que existem cerca de 30 mil crianças e adolescentes sob medida de proteção em serviços de acolhida provisória no Brasil. Desse total, 96% estão em serviços institucionais (abrigos) e apenas 4% estão com famílias cadastradas no programa de acolhimento familiar.
'Processo transformador', diz família voluntária
O casal de empresários Erica Camila Silva e Cristiano Silva decidiu se tornar uma família acolhedora após a experiência de amigos que atuam em uma comunidade no Chile. 'Eles têm uma comunidade no Chile e através dessa comunidade com mais de 80 famílias, praticamente 38 famílias já acolhiam. Eles vieram pro Brasil, compartilharam isso conosco e aí a gente chegou até ao município entendendo onde ficava a família acolhedora de Piracicaba', contou Erica.
O casal, que não tem filhos, recebeu em março um bebê de 11 meses que estava em um abrigo da cidade. 'Nós passamos por um processo de entender, justamente, que isso é um serviço, é uma oferta. Foi algo maravilhoso, conhecer outras famílias que acolhem. A chegada de nosso bebê, então, foi algo muito transformador para nós', completou Erica. 'Já estou craque em trocar fralda e dar banho. Eu pensava 'Meu Deus, nunca cuidei de uma criança'. É uma responsabilidade? Sim. Mas é uma responsabilidade, como eu falo para todo mundo, prazerosa. É saber que depois a gente tem que devolver e pensar na criança. Não é em nós, porque é o momento que a criança mais precisa', comentou Cristiano.
Benefícios do acolhimento familiar
O psicólogo Reginaldo Cícero ressalta que essa modalidade de acolhimento é voltada ao bem-estar da criança. 'A criança vai ter exemplos, vai ter uma rotina familiar, ela vai estar adaptada à rede de escola, ela vai estar recebendo afeto e amor de forma integral e tendo referência paterna e materna. É diferente de um abrigo institucional onde existem regras, onde existe toda uma rotina, onde existem crianças que estão além da idade dela', esclareceu.
A EPTV conversou com representantes de uma casa de acolhimento institucional que abriga 19 crianças e adolescentes. Desses, quatro poderiam estar com uma família acolhedora, mas não há famílias disponíveis.
Quem pode participar e como se inscrever
Para participar do programa Família Acolhedora em Piracicaba, é necessário ter mais de 21 anos, morar na cidade, ter disponibilidade de tempo e oferecer um ambiente saudável. Raquel da Silva Crispim, representante do serviço, explica: 'Isso é o mais importante. Temos uma equipe muito grande de apoio aos voluntários. Tem equipe técnica, coordenação. A pessoa não fica desamparada. Fazemos visitas e de 15 em 15 dias tem também a capacitação e cursos.'
Valdineia e Fábio participam do programa há 12 anos e já acolheram 12 crianças nesse período. 'É uma adaptação constante, porque cada um traz uma bagagem. Mas, é tão gratificante. O amor que a gente recebe deles é muito maior do que a gente dá. Às vezes, falamos que estamos curando. Não é, Nós somos curados por eles. Nós precisamos de mais pessoas com coração aberto para que essa nossa família cresça. Temos bastante crianças precisando desse cuidado e amor', disse Valdineia.



