Funcionários do Metrô de São Paulo iniciaram greve à 0h desta quarta-feira, 19, afetando a operação das linhas 1-Azul, 2-Verde, 3-Vermelha e 15-Prata. As linhas 4-Amarela e 5-Lilás, os trens da CPTM e os terminais de ônibus junto às estações operam normalmente. O rodízio de veículos foi suspenso.
Previsão de 24 horas de paralisação
A greve tem previsão de durar 24 horas. A decisão foi tomada em assembleia da categoria na noite de terça-feira. Os metroviários alegam salários congelados há dois anos, sem reajuste pela inflação, com perda salarial calculada em cerca de 10%.
O Tribunal Regional do Trabalho (TRT) convocou o Metrô e os trabalhadores para mediação às 15h desta quarta. Ainda não se sabe o que será proposto. Após a audiência, o Sindicato dos Metroviários pode convocar nova assembleia para definir os rumos da greve.
Operação reduzida a partir das 6h55
Segundo o Metrô, três linhas voltaram a operar em trechos reduzidos a partir das 6h55: linha 1-Azul entre Ana Rosa e Luz; linha 2-Verde entre Alto do Ipiranga e Clínicas; linha 3-Vermelha entre Bresser Mooca e Santa Cecília. A linha 15-Prata continua totalmente parada.
O Plano de Atendimento entre Empresas de Transporte em Situação de Emergência (Paese) foi acionado. Às 4h, 163 ônibus começaram a atender; às 8h25, a frota subiu para 315 coletivos, com viagens gratuitas. A distribuição inclui: linha 1-Azul (98 ônibus em três trechos), linha 2-Verde (53 ônibus em dois trechos), linha 3-Vermelha (95 ônibus em quatro trechos) e linha 15-Prata (69 ônibus na linha 5110 Terminal São Mateus – Terminal Mercado).
Medidas complementares e liminar
A SPTrans pediu às concessionárias de ônibus que aumentem partidas em todos os horários e mantenham toda a frota circulando. 25 linhas de ônibus que ligam bairros a estações de metrô tiveram percursos prolongados até a região central (19 na linha 1-Azul e seis na linha 3-Vermelha). A CPTM opera normalmente em todas as sete linhas; nas estações com transferência para o Metrô, o acesso ocorre apenas onde há operação (Luz e Brás).
A Secretaria dos Transportes Metropolitanos (STM) obteve liminar da Justiça do Trabalho determinando operação de 80% da frota nos horários de pico (6h-9h e 16h-19h) e 60% nos demais, sob pena de R$ 100 mil diários. O Sindicato dos Metroviários afirmou ao Estadão que “a greve é geral” e não há previsão de cumprimento.
Secretário critica greve; sindicato aguarda proposta
O secretário dos Transportes Metropolitanos, Alexandre Baldy, disse à rádio Eldorado que apenas 15% dos funcionários do Metrô trabalham, entre não aderentes e plano de contingência. “Aqueles que desrespeitarem a norma e a decisão judicial podem ser demitidos.” O sindicato afirma que o Metrô não o procurou para negociar; se houver proposta, nova assembleia será convocada para discutir o fim da greve. Caso contrário, a paralisação segue até meia-noite.
Impactos na vacinação e no trânsito
A Prefeitura suspendeu os postos volantes de vacinação contra covid-19 nas estações Butantã, República e Itaquera. Vacinas estão disponíveis em UBS, AMAs/UBSs Integradas, Centros de Saúde e SAEs.
A jornalista Vanessa Barbosa, 49, que mora no Piqueri, foi de ônibus para o trabalho. “Como sabia da greve, optei por vir de ônibus, mesmo gastando mais tempo. Quando passei na porta da estação Anhangabaú, estava com os portões fechados.” Ela se preocupa com aglomerações: “É arriscado porque os metroviários tomaram vacina, mas a maioria da população não. É um direito deles, mas poderia haver mais empatia.”
A gerente de RH Marcela Nishio, 36, saiu de carro do Carrão às 7h e levou duas horas até o Socorro, o dobro do habitual. “Com a greve, o tempo no trânsito foi o dobro. Muito trânsito, principalmente na Radial Leste.” Ela planeja sair às 14h para evitar a volta. “Não estão pensando na população que depende do transporte. Vi muitos pontos lotados, lotação nos ônibus. Desespero em pensar que estamos crescendo na sobrecarga de internações e que São Paulo possa parar de novo.”
O gestor de serviços Fábio Alcides, 45, saiu às 6h, uma hora e meia mais cedo. “Foi terrível. Tive que mudar minha rotina. Saí uma hora e meia mais cedo para ir de trem. Gastei dinheiro com aplicativo de transporte. Cheguei pouco antes das 9h.” Ele foi até Corinthians-Itaquera para usar a CPTM. “Superlotação e tudo desorganizado. Pessoas furando a fila. Situação inapropriada com a pandemia.”
No Twitter, a hashtag #MetroSP ficou entre os assuntos mais comentados, com usuários divididos entre apoiar e reclamar.
Entenda a greve
Na terça-feira, 18, reunião com representantes dos metroviários e do TRT ocorreu sem a presença de representantes do governo, classificada pelo sindicato como “um desrespeito à categoria”.
Camila Lisboa, coordenadora do sindicato, afirmou: “Não estamos pedindo aumento, estamos pedindo o reajuste inflacionário. Se vier alguma proposta de negociação, estamos dispostos a conversar e não paralisar o metrô. Mas isso está nas mãos do governo e do Metrô.”
Os dirigentes alegam que a categoria está há dois anos sem reajuste e sem receber a Participação nos Resultados (PR) de 2019 e 2020. O Ministério Público do Trabalho sugeriu proposta de acordo na segunda-feira, 17, descartada pelo Metrô. Altino Prazeres, dirigente sindical, afirma que a última proposta incluía reajuste de 2,61% (IPC maio/2019 a abril/2020), não pago, sem incluir o de 7,79% (2020/2021), e que a empresa tentou reduzir adicionais noturno e de férias e gratificação por tempo de serviço. “Estamos dispostos a negociar a qualquer horário, mas é preciso de alguma proposta. Sem isso, não voltamos a trabalhar.” Prazeres desafia o governo: “Se deixarem a catraca aberta, voltamos a trabalhar na mesma hora.”
Júlia Prestes dos Santos, 23, biomédica que faz testes de covid em Moema, relata: “Geralmente pego três metrôs. Amanhã terei de pegar três ônibus, aumentando a viagem em no mínimo uma hora.”
Posição da Secretaria
A STM afirmou em nota que o Metrô enviou proposta salarial “muito acima do praticado no mercado”, e que a empresa manteve serviços apesar de prejuízos de R$ 1,7 bilhão em 2020 e mais de R$ 300 mil no primeiro trimestre de 2021. “O sindicato certamente vive em uma realidade diferente do restante do País, que sofre com desemprego, perda de renda e fome.” A nota classifica a greve como “inadmissível” e afirma que a empresa ofereceu benefícios “muito além dos exigidos pela CLT”, como vale-refeição, previdência suplementar, plano de saúde, hora extra de 100%, adicional noturno de 35%, abono de férias de 60%, complementação salarial e auxílio creche. “Reivindicar novos aumentos, punindo a população com a paralisação e deixando milhares de pessoas que cuidam de serviços essenciais sem transporte é uma atitude desumana e intransigente.”



