A construção civil de Campinas (SP) apresenta sinais de desaceleração na geração de empregos formais, conforme análise de dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). O setor, que começou 2026 com saldo positivo de 334 vagas em janeiro, registrou fechamentos de postos em abril (-216) e maio (-458), interrompendo o ritmo de contratações observado no início do ano.
Fatores econômicos pressionam o setor
O economista Eli Borochovicius, professor da PUC-Campinas, atribui a desaceleração a uma combinação de fatores que afetam o mercado imobiliário. Entre eles, destacam-se os juros elevados, a perda de poder de compra das famílias e o aumento dos custos da construção. Segundo ele, o crédito mais caro dificulta a aquisição de imóveis financiados, principal modalidade de compra. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu em junho a Selic de 14,50% para 14,25% ao ano, mas a taxa ainda encarece o crédito.
"Na construção civil é muito raro alguém comprar um imóvel à vista. Com o financiamento mais caro e a inadimplência elevada, tende a diminuir a comercialização dos imóveis. Por consequência, você diminui as construções e também as contratações", afirma Borochovicius.
Custos e vendas em queda
Além do financiamento, o economista ressalta que os salários não acompanharam a inflação nos últimos anos, reduzindo a capacidade de compra. O aumento dos preços de insumos como aço, alumínio, madeira e produtos importados também pressiona as construtoras, que repassam parte dos custos ao valor final dos imóveis. "Chega a um determinado ponto em que você não consegue aumentar indefinidamente o preço das unidades. Isso reduz a oferta de novos empreendimentos e, consequentemente, a contratação de profissionais", explica.
Dados do Sindicato da Habitação (Secovi-SP) em parceria com a Brain Inteligência Estratégica mostram que a região de Campinas registrou 1.314 unidades lançadas no primeiro trimestre de 2026, queda de 47,1% em relação ao mesmo período de 2025 (2.488). As vendas somaram 3.215 unidades, recuo de 15,6% ante o primeiro trimestre de 2025 (3.808). O estoque de imóveis é de 10,5 mil unidades, com escoamento previsto em 9 meses.
Demanda ainda saudável, mas cautela predomina
Apesar da desaceleração do emprego, Borochovicius pondera que os indicadores não apontam para uma queda acentuada da demanda. "Vendeu-se mais do que foi lançado. O estoque não parece elevado e as vendas continuam em um nível que considero saudável", avalia. Para ele, a desaceleração das contratações está mais ligada à cautela das empresas diante dos custos e condições de financiamento do que à falta de demanda.
Componente sazonal e perspectivas
O especialista destaca um comportamento recorrente na construção civil: os maiores saldos de contratação ocorrem nos primeiros meses do ano, com perda de força no segundo semestre. Em 2024, o setor abriu 889 vagas em janeiro e 405 em fevereiro, mas fechou dezembro com saldo negativo de 397 postos. Em 2025, foram 249 vagas em janeiro e 664 em fevereiro, com dezembro registrando fechamento de 882 vagas. "O Caged mostra que a maior parte das contratações ocorre no início do ano. Historicamente, os meses de outubro, novembro e dezembro são mais fracos para o setor", afirma Borochovicius.
Diante desse histórico, o economista avalia que a construção civil dificilmente registrará forte aceleração do emprego no segundo semestre de 2026. No entanto, ressalta que os dados não configuram uma crise, mas sim uma desaceleração do ritmo de expansão em um contexto de juros elevados, custos mais altos e maior cautela de empresas e consumidores.



