Após 16 anos de espera, mais de 600 famílias que deixaram uma ocupação em Inhaúma, na Zona Norte do Rio, continuam sem receber os apartamentos prometidos pelo Governo do Estado. Um dos conjuntos habitacionais está praticamente concluído, mas a entrega foi adiada porque a rede de esgoto da rua ainda não foi finalizada.
Histórico da ocupação
As famílias viviam em uma ocupação instalada no terreno de uma antiga fábrica de cerveja desativada desde 1994. Em 2009, após um incêndio, o local foi considerado área de risco e os moradores foram removidos. Na época, o governo estadual prometeu realocar todos em novas unidades habitacionais.
Depoimentos dos beneficiários
A pedagoga Ana Paula Lourenço de Jesus acompanha a construção dos prédios há anos. "É um misto de emoção. Você sente que está chegando, mas não sabe quando vai chegar. Aqui tem o sonho de muita gente. Eu perdi meu esposo e ele não vai ter o prazer de chegar na casa dele", disse. Atualmente, ela mora de aluguel no Complexo do Alemão e afirma que a promessa de moradia definitiva se arrasta desde a remoção. "A gente acabou sendo iludido pela promessa de que teria uma casa, uma moradia digna, um CEP. Hoje eu ainda espero por isso", afirmou.
O aposentado Alexandre Jorge da Silva Freitas também participou do sorteio dos apartamentos. "O prazo dado no primeiro sorteio foi julho. Agora falaram setembro. Daqui a pouco muda de novo", disse. Enquanto aguardam, as famílias recebem auxílio-aluguel de R$ 400 por mês, valor que não é reajustado desde 2010. "Eu continuo pagando aluguel e recebendo R$ 400. Hoje pago R$ 600 para morar", afirmou Alexandre.
Conjunto habitacional com 440 apartamentos
O conjunto mais avançado conta com 440 apartamentos. Segundo a placa da obra, a construção foi iniciada em julho de 2023 pela Abre Construtora, com investimento de R$ 77 milhões. A previsão inicial era de entrega em dezembro de 2024. No início de junho, os futuros moradores participaram de uma reunião com sorteio das unidades. Eles já sabem em qual bloco e apartamento vão morar, mas ainda não receberam as chaves. A justificativa foi que os prédios ficaram prontos antes da conclusão da rede de esgoto externa. "Aí eu pergunto: como é que faz uma obra desse tamanho sem o esgoto externo?", questionou Ana Paula.
Segundo residencial também atrasado
No terreno da antiga fábrica, o governo estadual também constrói outro conjunto com 320 unidades habitacionais. Em 2022, a então Secretaria de Infraestrutura firmou contrato com a construtora R2X, com investimento previsto de mais de R$ 53 milhões. A ordem de início estabelecia prazo de 540 dias para conclusão, com término previsto para dezembro de 2023. No entanto, equipes ainda trabalham no local, e a entrega acumula atraso de cerca de dois anos e meio.
Posição do governo
A Secretaria de Estado de Habitação informou que o conjunto com 440 apartamentos está em fase final de construção e que a previsão de conclusão é dezembro deste ano. O prazo é diferente do informado aos beneficiários em reunião recente, quando foi citado setembro. Segundo a pasta, o Governo do Estado assumiu as obras em 2022 porque o terreno havia sido inicialmente destinado a um empreendimento financiado pela Caixa Econômica Federal. O Ministério das Cidades informou que o residencial não integra o programa Minha Casa, Minha Vida e não recebe recursos federais. Sobre a falta da rede de esgoto, a secretaria afirmou que as condições topográficas do terreno inviabilizaram o projeto original, exigindo a implantação de uma nova rede externa. As construtoras responsáveis foram procuradas, mas não responderam até a última atualização desta reportagem.



