Pica-paus-verdes-barrados brigam por fêmea em SP
Pica-paus-verdes-barrados brigam por fêmea em SP

O músico e passarinheiro Juliano Zucareli registrou uma cena rara de briga entre dois pica-paus-verdes-barrados (Colaptes melanochloros) nas proximidades do Córrego Senhorinha, em São José dos Campos (SP). Enquanto caminhava próximo de casa em busca de novos registros de aves, ouviu chamados agonísticos — relacionados à luta, combate ou competição — e seguiu o som até encontrar os dois indivíduos da mesma espécie em intensa disputa.

Disputa por fêmea

Segundo Juliano, uma fêmea vocalizava durante toda a briga. "Já tinha presenciado uma disputa de território dele com um pica-pau-cabeça-amarela, mas nunca entre indivíduos da mesma espécie", afirma o músico, surpreso. O ornitólogo Ricardo Ribeiro explica que o comportamento indica uma disputa por uma fêmea, que não aparece no vídeo, mas foi relatada pelo autor do flagrante. "A partir de julho inicia o período reprodutivo da espécie e, devido à proximidade desse período, os machos defendem o seu território com maior afinco. A presença de um indivíduo rival no território de um dos machos e a presença da fêmea foi suficiente para desencadear uma disputa", detalha.

Comportamento monogâmico e força das bicadas

O ornitólogo destaca que a espécie tem hábito reprodutivo monogâmico, com o casal permanecendo junto por várias estações, o que torna a disputa entre machos mais intensa. Especializado na perfuração de troncos de árvores, o pica-pau-verde-barrado possui um bico forte e capaz de causar ferimentos severos. No entanto, Ricardo observa que, no caso registrado, a gravidade aparentemente foi menor. "No vídeo é possível observar que ambos os indivíduos estão se movimentando durante a maioria dos ataques (bicadas e beliscadas), o que de certa forma diminui a força do ataque e do recebimento dele. Devido a esse movimento, por mais que possa causar um ferimento, ele possivelmente não seria grave", explica.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Fatores que influenciam a gravidade dos ferimentos

O especialista afirma que diferentes fatores podem influenciar a gravidade dos ferimentos, como a região atingida pelo ataque direto (por exemplo, olho, pescoço e crânio), o tempo de reação entre ataque e defesa, além da constância — principal trunfo dos pica-paus — e da força aplicada nos golpes.

Convivência entre pica-paus

Apesar da disputa registrada, os pica-paus nem sempre apresentam comportamento agressivo. Fora do período reprodutivo, essas aves podem viver em grupos familiares e até compartilhar áreas com outras espécies durante a busca por alimento. O pica-pau-verde-barrado é observado com mais frequência sozinho ou em casal, mas também pode formar pequenos grupos durante períodos de maior oferta de recursos alimentares e de descanso reprodutivo. Nessas ocasiões, pode inclusive ser visto ao lado de outras espécies, como o pica-pau-do-campo (Colaptes campestris). Já durante a época de reprodução, esse comportamento muda: os indivíduos passam a estabelecer e defender territórios de forma mais intensa, utilizando vocalizações e tamborilares — as famosas batidas rápidas do bico nos troncos — para afastar possíveis rivais. Essa defesa pode ocorrer tanto contra indivíduos da mesma espécie quanto contra outros pica-paus que ocupam a mesma área.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Sobre a espécie

O pica-pau-verde-barrado (Colaptes melanochloros) mede cerca de 28 centímetros de comprimento, possui plumagem esverdeada, região dos olhos branca e uma característica divisão vermelha e preta na cabeça. Os machos apresentam um pequeno "bigode" vermelho na base do bico. Ocorre em matas de galeria, cerrados, caatingas, campos com árvores e bordas de florestas, sendo cada vez mais comum em áreas urbanas. É encontrado em grande parte do Brasil, da Ilha de Marajó (PA) ao Rio Grande do Sul, além do Paraguai, Argentina e Uruguai. Alimenta-se principalmente de formigas, cupins alados, gafanhotos, aranhas e frutos. Sua língua possui uma secreção pegajosa que ajuda na captura de insetos. Utiliza a cauda como apoio para subir troncos e acessar presas escondidas na madeira. Produz tamborilações — batidas rápidas do bico em troncos, galhos e outros substratos — para marcar território e se comunicar. A temporada reprodutiva começa a partir de julho; o casal escava cavidades em árvores para construir o ninho, e ambos os pais participam da incubação dos ovos e dos cuidados com os filhotes.