Estudante compartilha cultura japonesa com receitas dos avós
Estudante compartilha cultura japonesa com receitas dos avós

A culinária vai muito além da simples combinação de ingredientes e temperos. Ela também é uma poderosa ferramenta para preservar tradições, conhecer raízes culturais e fortalecer os laços familiares por meio de receitas que passam de geração em geração. Foi exatamente assim que Francine Yuri Yamashita, estudante de agronomia da Universidade de São Paulo (USP) e moradora da Colônia do Pinhal, em São Miguel Arcanjo (SP), encontrou uma forma especial de valorizar suas origens nipo-brasileiras ao lado dos avós, Osamu Yamashita, de 90 anos, e Shigueko Yamashita, de 84.

Para celebrar o Dia da Imigração Japonesa, nesta quinta-feira (18), o g1 conversou com a jovem, que conta que o que começou na cozinha da família ultrapassou os limites de casa e ganhou espaço nas redes sociais. Lá, ela compartilha receitas, histórias e tradições herdadas dos avós. "Tudo começou na pandemia. Eu estava em casa e não tinha muito o que fazer, e queria muito comer umas comidinhas gostosas. Minha avó sempre cozinhou muito bem e fazia um monte de coisas. Eu falei assim: 'vou usar esse tempo que eu já estou em casa para aprender alguma coisa com ela'", relembrou Yuri.

A ideia de compartilhar os conhecimentos da cultura japonesa que aprendeu com a batchan — palavra que significa avó em japonês — surgiu de forma natural. Uma vez por semana, Francine se reunia com a avó para preparar receitas tradicionais e registrar os momentos na cozinha. Com o tempo, ela também passou a incluir o jichan — avô, em japonês — nos vídeos. O conteúdo conquistou o público nas redes sociais e transformou a rotina da família em um fenômeno na internet. Atualmente, Yuri soma mais de 60 mil seguidores, e algumas publicações já ultrapassaram a marca de 2 milhões de visualizações. "Ele é uma pessoa muito sábia e tem muitas histórias legais para contar, não só para mim, mas para todo mundo. Acho que é uma forma legal de compartilhar esses relatos", apontou a neta.

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Os vídeos produzidos por Yuri também apresentam produtos, alimentos e utensílios tradicionais da cultura japonesa, como o chōshi, recipiente utilizado para servir saquê quente. Além da gastronomia, o conteúdo explora outros aspectos das tradições nipônicas, como apresentações de taiko (tambores japoneses), rotinas de cuidados com a pele utilizando produtos do Japão e atividades ligadas à pintura e caligrafia, aproximando os seguidores de diferentes elementos da cultura japonesa. "É mais uma forma de mostrar afeto, sabe? Eles [avós] já estão há tantos anos comendo as mesmas comidas. Eles sempre prezaram bastante por eu e meu irmão para a gente seguir a cultura japonesa", disse Yuri.

Origens e comunidade

Apesar de ter nascido no Brasil, Yuri sempre esteve inserida dentro da cultura e tradições japonesas, pois cresceu e viveu na Colônia do Pinhal, em São Miguel Arcanjo — uma comunidade de imigrantes e descendentes japoneses que conta com escolas, bibliotecas e atividades econômicas próprias. "Eu moro aqui na colônia desde que nasci. Já era comum, para mim, viver em meio à cultura. Acho que o momento que mais me deu um estalo para querer viver ainda mais essa cultura foi quando estive no Japão, em um intercâmbio. Lá, pude ter mais contato e conseguir assimilar melhor o que é a cultura japonesa e a nipo-brasileira", disse Yuri.

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A família da estudante foi a quarta a participar da colônia, fundada em setembro de 1962. Segundo Yuri, seu avô morava na península de Fukui, no Japão: "Era uma cidade bem pequena de pescadores, e o sonho dele sempre foi se tornar agricultor. Nesse tempo, começaram as propagandas para quem queria ir ao Brasil. Ele se apaixonou pela ideia e falou: 'nossa, esse é o meu sonho de vida', e decidiu se mudar". Os familiares do imigrante foram contra a mudança. Ele chegou ao país ainda solteiro, mas não demorou para que os parentes iniciassem uma verdadeira campanha para ajudá-lo a encontrar uma esposa. Em Fukui, cidade de origem da família no Japão, eles passaram a divulgar que estavam à procura de uma companheira para o imigrante. "Divulgaram em jornal que estavam em busca de uma esposa. Nisso, a minha avó viu a foto dele e falou: 'quero casar com ele'. Na época, ela ainda estudava, mas começaram a conversar. Ela fez uma entrevista com os pais dos meus avôs, foi escolhida e começaram a trocar cartas, ficaram nisso por dois anos. Ela se formou e veio até o Brasil para os dois se casarem", relatou Yuri.

Antes de chegar ao interior paulista, o casal morou em Poços de Caldas, em Minas Gerais. Eles chegaram em São Miguel Arcanjo assim que a comunidade japonesa foi fundada. No local, o avô de Yuri ajudou a fundar a cooperativa que existe dentro da colônia. Os cuidados com a terra seguem inseridos na estrutura familiar de Yuri. Atualmente, o pai dela, Francisco Takahiro Yamashita, de 61 anos, é o responsável por dar continuidade aos trabalhos iniciados pelo avô. Ela também criou interesse pela área e decidiu estudar sobre o assunto, seguindo a tradição familiar. Atualmente, a principal atividade da família é o cultivo de uvas, embora a propriedade também produza outras frutas, como nêspera e atemoia. "Meu interesse surgiu mais por conta da história da minha família. Por conta de tudo o que meu avô fez para ser um agricultor e construir o sítio. Meu pai também deu sequência com muito carinho. Acredito que isso me inspirou e me fez querer fazer agronomia", comentou.

Viagem ao Japão

São mais de 18 mil quilômetros que separam São Miguel Arcanjo do Japão. A distância, no entanto, não impediu Yuri de conhecer duas vezes o país de seus antepassados. A primeira viagem aconteceu graças à participação dela em um grupo de taiko, a tradicional arte musical japonesa marcada pelo uso de tambores. Já a segunda ocorreu em 2024, quando realizou um intercâmbio que aprofundou ainda mais sua conexão com a cultura e as tradições do país. "Eu fui para morar em Kyoto. É maravilhoso, a gente fica encantado, é uma experiência de vida. Acho que me fez muito bem, para eu me conhecer melhor. A gente aprende bastante sobre a cultura japonesa. Mas me fez perceber que eu gosto mesmo é da cultura nipo-brasileira", confessou a jovem.

Para Yuri, a principal diferença está na forma como as pessoas se relacionam. Ela afirma que prefere o Brasil por considerar os brasileiros mais acolhedores, afetuosos e abertos ao diálogo. "Acredito que é uma cultura que ensina muito para a gente e, quanto mais buscamos através das artes e filosofias, mais aprendemos. Eu gosto muito dessa parte. Sinto muito orgulho e carinho em ser nipo-brasileira", concluiu.

Cooperativa na Colônia do Pinhal

Há 59 anos, cerca de 20 produtores rurais se uniram e formaram uma cooperativa dentro da Colônia do Pinhal. Atualmente, o local conta com 200 cooperados que atuam na área de hortifrúti e fornecimento de insumos. Entre as principais culturas da propriedade estão a uva, o caqui, a nêspera, a atemoia e a pitaia. A família também cultiva hortaliças e legumes, como abobrinha, tomate, pepino e pimentão. A maior parte da produção é comercializada por meio da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), abastecendo mercados e consumidores da capital paulista e de outras regiões.

Para explicar mais sobre a cooperativa, o g1 conversou com o gerente do local há 21 anos, Paulo Koji Ariga, de 49 anos. "Os fundadores são japoneses, mas foram incorporados outros produtores, que são brasileiros. Surgiu porque eles tinham dificuldade no escoamento da produção. Meu pai também foi um dos fundadores", contou. Conforme Paulo, a presença de moradores japoneses influenciou na produção e cultivo nas terras de São Miguel Arcanjo. "Aqui, na região, praticamente não tinha nada. Com a instalação dos produtores japoneses, o pessoal foi adquirindo técnicas e aprimorando para ajudar na produção", citou.

O gerente diz que, atualmente, a cooperativa tem enfrentado dificuldades devido à concorrência que chegou até a região do interior paulista. "Teoricamente, uma cooperativa serviria para ajudar todos os produtores, mas nem todos colaboram. Alguns dão preferência para a concorrência em vez de comprar com cooperados, por causa da diferença de preço dos produtos", analisa Paulo. Ele revela que sente orgulho de suas raízes e descendência e afirma que os japoneses tiveram papel essencial no desenvolvimento do Brasil: "A gente produz alimentos, que é um bem necessário para todos. A gente tem orgulho em colaborar para essa melhoria".

Chegada dos japoneses em São Miguel Arcanjo

Em nota enviada ao g1, o Museu da Imigração do Estado de São Paulo informou que registros históricos apontam que a chegada de imigrantes japoneses a São Miguel Arcanjo ocorreu dentro de um processo de colonização agrícola intensificado no período pós-Segunda Guerra Mundial, quando novas correntes migratórias japonesas foram direcionadas para diferentes regiões do Brasil. Segundo a instituição, as informações constam em uma pesquisa desenvolvida por Adriana Aparecida Alves da Silva Pereira e reunidas em uma obra que retrata a história da colônia japonesa no município.

"A presença japonesa em São Miguel Arcanjo está diretamente relacionada à fundação da Colônia Pinhal, em setembro de 1962. O empreendimento foi organizado por empresa japonesa responsável por recrutar emigrantes, adquirir terras no Brasil, realizar o loteamento e prestar apoio inicial aos colonos. A Colônia Pinhal integrou um conjunto de dez colônias agrícolas implantadas pela empresa em diferentes regiões brasileiras", informa o museu. São Miguel Arcanjo é uma das cidades paulistas fortemente marcadas pela presença nipo-brasileira. De acordo com o museu, a escolha do município paulista esteve diretamente relacionada ao perfil agrícola da região e à disponibilidade de terras para o desenvolvimento de projetos rurais. A iniciativa não se limitava ao assentamento das famílias imigrantes, mas incluía também a implantação de infraestrutura essencial para a comunidade, como a abertura de estradas, fornecimento de energia elétrica, construção de escolas e oferta de outras condições necessárias para a permanência e desenvolvimento dos colonos.

"As três primeiras famílias chegaram em 1962, vindas da província de Fukui, e ao longo dos anos seguintes aproximadamente 54 famílias provenientes do Japão e de outras localidades brasileiras passaram a integrar a comunidade", explica a pasta. "A Colônia Pinhal deve ser compreendida não apenas como um espaço geográfico, mas como uma construção comunitária e simbólica voltada à preservação de práticas culturais, educacionais e associativas de origem japonesa". O estado aponta que, entre as principais contribuições da comunidade japonesa para a região, estão o desenvolvimento agrícola, a organização cooperativista, a valorização da educação, a manutenção do ensino da língua japonesa e a constituição de associações culturais e esportivas que permanecem ativas até hoje. Além de São Miguel Arcanjo, o museu cita diversas outras cidades do interior paulista que possuem laços fortes ligados à imigração japonesa, entre elas Registro, Bastos, Tupã, Pereira Barreto, Mirandópolis, Promissão, Marília e Araçatuba. "Cada uma dessas localidades desenvolveu experiências particulares de inserção dos imigrantes japoneses, muitas vezes associadas à agricultura, ao cooperativismo e à formação de núcleos comunitários", informou o Museu da Imigração do Estado de São Paulo.