Estudo revela 241 espécies de borboletas em reserva entre Alagoas e Pernambuco
241 espécies de borboletas são descobertas em reserva na divisa AL-PE

Um inventário inédito realizado na Reserva Biológica Pedra Talhada, localizada entre Alagoas e Pernambuco, identificou 241 espécies de borboletas e revelou 87 novos registros para o estado de Alagoas. O levantamento também documentou 22 espécies nunca antes registradas na Mata Atlântica ao norte do Rio São Francisco e confirmou a presença de uma subespécie criticamente ameaçada de extinção.

Características da reserva

A Reserva Biológica Pedra Talhada abriga uma área de quase 12 mil hectares encravada no bioma Mata Atlântica, no interior do Nordeste brasileiro. A sede fica no município de Quebrangulo (AL), cidade natal do escritor alagoano Graciliano Ramos, autor de obras como Vidas Secas, São Bernardo e Memórias do Cárcere, entre outros clássicos da literatura nacional.

A Rebio Pedra Talhada é classificada como um "brejo de altitude", ou seja, um enclave de floresta atlântica em meio a uma região predominantemente seca. Dentro da reserva existem diversas nascentes e rios, e é perceptível como a mata é mais úmida em comparação ao entorno.

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Pesquisa inédita

Foi nesse cenário que um grupo de pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) decidiu realizar um estudo inédito sobre borboletas. "A ideia do trabalho surgiu ao visitarmos a reserva para realizar uma atividade de coleta de insetos no geral. Lá, me deparei com a grande diversidade de borboletas da área e fiquei impressionado. A reserva constitui um importante reduto verde cercado por uma área de caatinga, então a composição das espécies era naturalmente bem interessante", revela Eduardo Tavares, do Laboratório de Entomologia da UFPB e um dos integrantes do grupo de pesquisa.

Metodologia e resultados

O levantamento, liderado pela Universidade Federal da Paraíba, contou com apoio da Unicamp, sob orientação do professor André Freitas. Os pesquisadores paraibanos já sabiam que colegas paulistas haviam realizado coletas de borboletas na reserva. A proposta era reunir os dados das duas instituições e compor uma lista mais abrangente de espécies. Entre as áreas de Mata Atlântica do Brasil, a porção localizada ao norte do Rio São Francisco é a menos estudada em relação à fauna de borboletas. Os biólogos realizaram cinco expedições de coleta na Reserva Biológica Pedra Talhada entre 2018 e 2024.

O resultado do inventário superou as expectativas. Ao todo, os pesquisadores identificaram 241 espécies de borboletas pertencentes a sete famílias. As estatísticas apontaram ainda 87 novos registros para o estado de Alagoas e 22 novos registros para a Mata Atlântica ao norte do Rio São Francisco.

Distribuição por famílias

Das 241 espécies encontradas, a maior parte pertence à família Nymphalidae, com 93 espécies (38%). Em seguida aparecem: Hesperiidae, com 80 espécies (33%); Lycaenidae, com 26 espécies (11%); Riodinidae, com 19 espécies (7%); Pieridae, com 17 espécies (7%); Papilionidae, com cinco espécies (2%); e Hedylidae, representada por uma espécie (0,41%).

Espécie ameaçada

Entre os destaques está o registro de Scada karschina delicata, uma subespécie criticamente ameaçada de extinção e de grande interesse para a conservação. "Esse trabalho preenche lacunas de conhecimento sobre a biodiversidade na Mata Atlântica ao norte do Rio São Francisco, uma das regiões historicamente menos estudadas do Brasil no que respeita à fauna de lepidópteros, também expandindo o mapeamento da distribuição geográfica de várias borboletas. Além disso, esse trabalho fornece dados ecológicos para a conservação ao confirmar a presença de táxons raros, recém-descritos ou severamente ameaçados, como a subespécie criticamente em perigo Scada karschina delicata. Além disso, já que as borboletas são excelentes bioindicadoras da saúde ambiental, este inventário valida a relevância ecológica dos brejos de altitude do Nordeste e estabelece uma base científica para futuras pesquisas", explica Eduardo Tavares, da UFPB.

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Importância ecológica

O inventário é uma importante ferramenta científica porque, historicamente, o Nordeste ainda carece de estudos sobre diversos grupos da biodiversidade. Essa lacuna é ainda maior quando se trata de animais frequentemente negligenciados em pesquisas, como os insetos. "As borboletas atuam como polinizadoras, também compondo a dieta de diversos animais e contribuindo para o equilíbrio ecológico da região. Por serem sensíveis às alterações ambientais e frequentemente dependentes de recursos específicos, também funcionam como excelentes bioindicadoras da qualidade dos habitats", conclui Eduardo Tavares.