Sobreviventes de acidente na BR-153 recebem acolhimento em casa de passagem em Marília
Os sobreviventes do grave acidente envolvendo um ônibus que transportava trabalhadores rurais pela Rodovia Transbrasiliana (BR-153), no trecho entre Ocauçu e Marília, no interior de São Paulo, continuam recebendo acolhimento em uma casa de passagem no município de Marília. O trágico evento, ocorrido na madrugada do dia 16 de fevereiro, resultou em sete vidas perdidas e 45 pessoas feridas, expondo uma realidade de vulnerabilidade social entre os passageiros.
Acolhimento e apoio psicossocial aos sobreviventes
De acordo com a Secretaria Municipal de Assistência Social de Marília, os sobreviventes que recebem alta hospitalar são encaminhados para a Casa Cidadã, onde passam por um processo de acolhimento integral. A secretária Hélide Maria Parrera destacou que a equipe oferece apoio psicossocial e estabelece contato com as famílias das vítimas para facilitar a comunicação e o suporte necessário durante este momento difícil.
Durante os atendimentos, ficou evidente a situação de extrema vulnerabilidade dos trabalhadores. Muitos deles não tinham clareza sobre o município de destino, a fazenda onde supostamente trabalhariam ou mesmo a função que desempenhariam. "Nos atendimentos, percebemos que muitos não tinham clareza sequer do município ou da fazenda onde iriam trabalhar", afirmou a secretária, revelando a precariedade das condições de contratação.
Investigação trabalhista aponta irregularidades graves
O Ministério Público do Trabalho (MPT) acionou a Polícia Civil para acompanhar as investigações sobre o acidente, com fortes indícios de infrações trabalhistas. A delegada Renata Ono, responsável pelo caso, informou que um auditor fiscal identificou possíveis irregularidades, incluindo a ausência de contrato formal de trabalho e recrutamento realizado por um terceiro, o que pode configurar intermediação ilícita de mão de obra.
A delegada ressaltou a vulnerabilidade dos trabalhadores, muitos com baixa escolaridade e sem informações precisas sobre o destino da viagem. Há suspeitas de que o caso possa envolver trabalho em condições análogas à escravidão. O MPT deve instaurar um procedimento para apurar a responsabilidade da empresa ou do contratante, assegurando os direitos das vítimas e de seus familiares.
Condições precárias do veículo e viagem irregular
O ônibus que transportava os trabalhadores rurais apresentava diversas irregularidades que contribuíram para a tragédia. Segundo relatos de sobreviventes à polícia, o veículo não possuía cintos de segurança e seguia viagem com um pneu faltando em um dos eixos, após o motorista ter retirado outro que havia estourado antes de entrar em São Paulo. Além disso, foram identificados pneus carecas e farol queimado.
A investigação aponta que o motorista perdeu o controle da direção após um dos pneus estourar, fazendo o ônibus tombar na pista. Para a delegada, ao optar por continuar a viagem nessas condições, o condutor assumiu o risco de provocar o acidente, já que a ausência de um dos pneus comprometeu significativamente a estabilidade do veículo.
A viagem, que partiu da região norte do Maranhão com destino a Santa Catarina para a colheita de maçãs, percorria mais de 3 mil quilômetros sem a autorização necessária da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) para fretamento interestadual. A empresa responsável pelo transporte, sediada no Maranhão, será investigada e poderá ser responsabilizada pelas irregularidades e pela precariedade do veículo.
Consequências do acidente e medidas de apoio
Dos 45 feridos, 26 foram socorridos pelo Serviço Móvel de Urgência (Samu), 12 pelo policiamento da área, seis pelo Corpo de Bombeiros e um pela ambulância da concessionária. Os feridos foram distribuídos entre Santa Casa, Hospital das Clínicas, Unimar, Hospital Materno-Infantil e Unidades de Pronto-atendimento (UPA) de Marília, com cinco pacientes em estado grave no Hospital das Clínicas e três na UTI da Santa Casa com politraumas.
A Prefeitura de Marília, em conjunto com a Secretaria de Desenvolvimento Social do Maranhão, está providenciando a emissão de novos documentos para os sobreviventes, muitos dos quais perderam seus documentos no acidente. Um convênio de aproximadamente R$ 235 mil foi firmado para custear o retorno e a assistência às vítimas, sendo cerca de R$ 185 mil provenientes do governo estadual. A previsão é de que o retorno ocorra por meio de transporte aéreo, em uma ação conjunta entre a Prefeitura de Marília e os governos de São Paulo e Maranhão.
O Hemocentro de Marília emitiu um comunicado solicitando doações de sangue para o atendimento dos feridos, registrando mais de 200 doações desde o dia do acidente. A comunidade local tem demonstrado solidariedade diante da tragédia.
Depoimentos emocionantes das vítimas
José da Silva Reis, trabalhador que perdeu o pai no acidente, relatou o momento de susto: "[Estava] eu e outro rapaz, meu pai estava bem atrás de mim. Eu só lembro do tempo que capotou e eu já estava do lado de fora. Quando eu abracei meu pai, ele já estava morto". Após verificar o estado do pai, José ajudou outras vítimas que ainda estavam vivas, apresentando apenas ferimentos leves em uma das mãos.
Wagner da Silva Carvalho, outro sobrevivente, descreveu: "Estava dormindo. Aí, na hora, eu escutei um barulhão no pneu. Aí, aquela zoada mesmo, aí [a gente] se espantou. Aí o carro virou. Aí, nessa hora, depois que virou, eu não me lembro mais nada. Quando eu me lembrei, já estava no chão".
O motorista Claudemir Moraes Moura foi preso em flagrante e será investigado por homicídio e lesão corporal na direção de veículo automotor. Ele também ficou ferido no acidente e permanece internado sob escolta policial no Hospital das Clínicas, aguardando audiência de custódia após alta médica.
Os corpos das sete vítimas fatais já foram encaminhados para o Maranhão para sepultamento, com a Defesa Civil do estado atuando no caso. As identidades das vítimas foram confirmadas pela Polícia Civil, incluindo Edilson Da Silva Lima, Robson Rodrigues Alexandrino, Gonçalo Lisboa Dos Santos, Antônio Da Silva Nascimento, José Milton Ribeiro Reis, Raimundo Nonato Sousa da Silva e Santana Barros de Oliveira.