A terapia CAR-T, considerada uma das maiores revoluções recentes da oncologia, tem transformado o prognóstico de pacientes com tumores hematológicos agressivos. No Brasil, no entanto, o acesso ao tratamento enfrenta obstáculos como filas, disputas judiciais, falta de infraestrutura e dificuldades logísticas em um país de dimensões continentais.
O que é a terapia CAR-T?
A terapia CAR-T funciona como uma engenharia do sistema imunológico. Inicialmente, os médicos retiram linfócitos T, células de defesa do próprio paciente, do sangue. Em laboratório, essas células sofrem modificação genética para se tornarem capazes de identificar e atacar células tumorais específicas. Posteriormente, elas são reinfundidas no organismo. O oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, compara o processo à criação de um "super soldado" imunológico. "Nós retiramos os linfócitos T do paciente, reprogramamos essas células para reconhecer o tumor e depois as reinfundimos no organismo já preparadas para atacá-lo", explica.
Resultados impressionantes, mas acesso restrito
Estudos mostram taxas de resposta que chegam a 80% em alguns tipos de câncer hematológico, com remissões completas e duradouras em mais da metade dos casos. No entanto, um estudo publicado na revista Frontiers in Hematology revela que muitos pacientes brasileiros não conseguem chegar ao tratamento a tempo. "Parte dos pacientes sequer consegue chegar ao tratamento: muitos pioram clinicamente ou morrem antes de obter acesso à CAR-T", afirma Stefani, um dos autores do trabalho. O estudo reúne especialistas em oncologia, saúde pública, regulação sanitária, defesa dos pacientes e direito à saúde para mapear os principais entraves da terapia no Brasil. Entre os autores estão médicos pioneiros no uso da CAR-T no país, representantes de entidades de pacientes, ex-integrantes do Ministério da Saúde e um ex-presidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Atualmente, o Brasil é o único país da América Latina com acesso estruturado à terapia CAR-T.
Custo milionário e desigualdade
O custo do tratamento pode ultrapassar US$ 500 mil por paciente, equivalente a cerca de R$ 2,8 milhões, podendo chegar a R$ 4 milhões em dose única. Além do preço, a terapia exige centros altamente especializados, equipes treinadas e infraestrutura hospitalar complexa. No setor privado, o desafio é o impacto financeiro para as operadoras de saúde. No Sistema Único de Saúde (SUS), faltam modelos específicos de financiamento e incorporação. Como resultado, muitos pacientes recorrem à Justiça. "Hoje, 100% dos casos brigam judicialmente e ganham", afirma Stefani. Para ele, a judicialização não conserta o sistema, apenas resolve o problema daquele paciente.
Desafios logísticos em um país continental
Parte das células coletadas de pacientes brasileiros precisa ser enviada para laboratórios no exterior, como Estados Unidos e Holanda, antes de retornar ao país para aplicação. Em um país continental, isso cria obstáculos extras. "Em algumas regiões, haverá pacientes que precisarão passar até dois dias em um barco para chegar a um centro habilitado", diz Stefani. Problemas em conexões aéreas podem comprometer o processo. "Uma falha logística simples, como a perda de uma conexão aérea, pode comprometer todo o material biológico do paciente", alerta. O estudo defende a criação de protocolos nacionais, ampliação de centros habilitados, desenvolvimento de sistemas de acompanhamento e investimento em modelos de financiamento específicos para terapias de alto custo.
Produção nacional como esperança
Iniciativas lideradas pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Instituto Nacional de Câncer (INCA), Universidade de São Paulo (USP) e parceiros internacionais buscam desenvolver versões nacionais da CAR-T. A expectativa é reduzir custos e diminuir a dependência de laboratórios estrangeiros. Experiências de países como Índia e China apontam possibilidade de reduzir os custos em até dez vezes, embora o tratamento continue caro. Para os autores, o Brasil pode se tornar referência regional em terapias celulares avançadas, mas isso dependerá de investimento em infraestrutura, qualificação profissional e reorganização do sistema de saúde. "Não basta a terapia funcionar. Ela precisa caber na realidade brasileira", resume Stefani.



