Mercado da 'boa morte' cresce globalmente enquanto Brasil ainda enfrenta tabus sobre o fim da vida
Mercado da 'boa morte' cresce globalmente; Brasil enfrenta tabus

Movimento global pela 'boa morte' ganha força enquanto Brasil ainda lida com tabus sobre o fim da vida

O Centro de Longevidade da Universidade Stanford mapeou um novo movimento que está se espalhando pelo mundo: o da "boa morte". Enquanto nos Estados Unidos e em dezenas de outros países surgem iniciativas para discutir a finitude de forma aberta, no Brasil o assunto ainda causa desconforto significativo e há poucas vozes que provocam a reflexão necessária sobre o tema.

Vozes brasileiras e iniciativas internacionais

Entre as poucas profissionais que abordam o assunto no Brasil está a médica Ana Claudia Quintana Arantes, autora do best-seller A morte é um dia que vale a pena viver. Sua obra tem sido um importante ponto de partida para muitas conversas difíceis sobre o fim da vida em território nacional.

Internacionalmente, o Death Café é um dos projetos mais emblemáticos desse movimento. Criado em 2004 pelo antropólogo suíço Bernard Cretazz, que também cunhou a expressão "sigilo tirânico" para descrever o medo e a rejeição que as pessoas têm de falar sobre a morte, essas reuniões acontecem em dezenas de países. No Brasil, há encontros mensais em diversas cidades, onde participantes conversam abertamente sobre o fim e o luto.

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Profissionais especializados e crescimento do setor

As doulas de fim de vida representam outra faceta importante desse mercado em expansão. Com um trabalho semelhante ao das doulas que acompanham gestantes - oferecendo suporte emocional, físico e informativo - essas profissionais não substituem médicos, enfermeiros ou equipes de cuidados paliativos. Seu papel é ajudar pacientes e familiares a lidar com o medo, a dor e os preparativos para o desfecho final, buscando maior autonomia para quem está morrendo.

Nos Estados Unidos, o crescimento desse setor é impressionante: de apenas 260 doulas de fim de vida em 2019, o número saltou para 1.600 profissionais em 2024, demonstrando uma demanda crescente por serviços especializados nessa área.

Iniciativas criativas e mudança cultural

Outra proposta inovadora é "A morte no jantar" ("Death over dinner"), criada pelo norte-americano Michael Hebb. Como o nome sugere, trata-se de um jantar onde o tema central é como gostaríamos de viver nossos últimos momentos. A iniciativa já existe em dezenas de países e estima-se que mais de 100 mil pessoas já participaram desses eventos.

O médico de cuidados paliativos BJ Miller, coautor de A beginner's guide to the end (Um guia para iniciantes sobre o fim), critica a visão predominante na medicina: "A medicina mantém uma visão iluminista de que a morte é um problema e que, se trabalharmos duro o suficiente, podemos resolvê-lo". Ele defende uma mudança de perspectiva entre profissionais de saúde, que precisam entender que a morte não é algo que tira a vida, mas sim que faz parte dela.

Evolução histórica e mudanças recentes

A atitude em relação à morte mudou dramaticamente ao longo do tempo. No final do século XIX e início do XX, as pessoas frequentemente morriam em casa, e esse era um acontecimento que fazia parte da vida doméstica. Em 1980, quase três quartos dos óbitos nos EUA ocorriam em hospitais, instituições ou asilos.

De acordo com pesquisadores de Stanford, a marcha do século XX rumo à supremacia médica acelerou uma sensação de alienação entre pacientes terminais e cuidadores exaustos. Agora, o pêndulo parece estar voltando, com mais gente optando por morrer em casa, em um ambiente familiar e acolhedor.

Jovens lideram as conversas e influência do entretenimento

Curiosamente, são os jovens que vêm tomando a iniciativa das conversas sobre a morte. Eles pertencem a uma geração cuja desconfiança nas autoridades é alimentada pelo fracasso dos líderes políticos em responder adequadamente às mudanças climáticas e à instabilidade social. Além disso, a pandemia de Covid-19 expôs essa geração precocemente ao espectro da extinção, acelerando o interesse por discussões sobre finitude.

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A indústria do entretenimento também navega nesse filão, com programas sobre organizar os pertences antes de morrer (como The gentle art of swedish death cleaning), dramas hospitalares (como The Pitt) e filmes sobre o luto. A End Well, uma organização sem fins lucrativos focada no assunto, encomendou um estudo que mostrou que os espectadores ficaram mais dispostos a discutir questões de fim de vida após assistirem a programas com esses temas.

Todas essas ações vêm se multiplicando com o mesmo objetivo fundamental: mudar a maneira como a morte vem sendo tratada na civilização ocidental, transformando um tabu em uma conversa necessária e humanizada.