Cúrcuma: Mercado milionário de suplementos cresce, mas uso indiscriminado oferece riscos hepáticos
A cúrcuma, também conhecida como açafrão-da-terra, é um condimento milenar que se transformou em um fenômeno global como alimento funcional, movimentando um mercado de suplementos que vale milhões de dólares. No entanto, o uso indiscriminado de extratos e cápsulas pode representar sérios riscos à saúde, especialmente para o fígado, conforme alerta da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
História e popularidade da especiaria
Com uma história que remonta a pelo menos 4.000 anos na culinária asiática, a cúrcuma, apelidada de "ouro indiano", sempre esteve ligada a tradições medicinais. Seus 53 nomes em sânscrito, como "aquela que vence doenças", refletem sua reputação terapêutica. Em 1949, a ciência ocidental começou a investigar suas propriedades, com a curcumina, seu principal composto, sendo associada a efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios em mais de 28.200 pesquisas subsequentes.
Benefícios e limitações científicas
Estudos apontam benefícios modestos, mas consistentes, quando a cúrcuma é consumida na dieta, como a melhora na sensibilidade à insulina, o que pode auxiliar no controle glicêmico de pessoas com diabetes. No entanto, a nutricionista Camille Perella Coutinho, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), ressalta que muitas descobertas promissoras vêm de testes com células ou animais, e os efeitos em humanos tendem a ser mais limitados devido à baixa absorção da curcumina pelo organismo.
Manuela Dolinsky, presidente do Conselho Federal de Nutrição (CFN), explica que a fama da cúrcuma é impulsionada por seu baixo custo e alinhamento com tendências de busca por alimentos funcionais e estilos de vida equilibrados. Apesar disso, ela não é uma panaceia, e o apelo popular muitas vezes supera as evidências científicas robustas.
Crescimento do mercado e riscos dos suplementos
O mercado de soluções baseadas em cúrcuma está em expansão, com projeções da consultoria Grand View Research indicando um salto de 98,9 milhões de dólares em 2024 para quase 200 milhões até 2030. Isso alimenta uma indústria de suplementos que oferece cápsulas com alegações variadas, de "desinflamação" a "perda de peso".
Porém, a Anvisa emitiu um alerta sobre casos graves, embora raros, de danos hepáticos relacionados a extratos e suplementos de cúrcuma, com episódios de intoxicação registrados em países como Itália, Austrália, Canadá e França. Dolinsky adverte que esses riscos podem surgir devido a predisposição genética, interações com medicamentos ou contaminantes em produtos de baixa qualidade.
Segurança no consumo como tempero
Felizmente, o alerta não se aplica ao uso da cúrcuma como tempero. A Anvisa tranquiliza os consumidores, afirmando que o consumo na culinária, seja em pratos tradicionais ou receitas populares como o "leite dourado", é seguro e pode ser incentivado. Com bom senso, a especiaria continua a enriquecer refeições, mantendo sua tradição milenar sem os perigos associados aos suplementos.
Em resumo, enquanto a cúrcuma como condimento oferece benefícios e segurança, o uso de suplementos requer cautela e orientação profissional para evitar riscos à saúde.



