Aos 82 anos, espanhol bate recordes mundiais de corrida com metabolismo de jovem de 20 anos
Aos 66 anos, Juan López González calçou um par de tênis e saiu pela porta de sua casa em Toledo, na Espanha, para correr pela primeira vez na vida. Hoje, aos 82 anos, ele acumula diversos recordes mundiais na categoria de "ultradistância" para sua faixa etária, demonstrando uma vitalidade extraordinária que surpreende a comunidade científica.
Metabolismo de jovem e rotina intensa
López explica que, apesar de ter pouco tempo para treinar devido aos cuidados com sua esposa doente, ele ainda consegue correr seis vezes por semana para se manter em forma. "Ocupo todas as manhãs arrumando o café da manhã, fazendo compras e cuidando das coisas de casa", conta. "À tarde, quando deixo minha mulher, Mari, tranquila no sofá, posso ir treinar. Então, treino entre duas horas e duas horas e meia, seja inverno ou verão." Aos domingos, a rotina muda: ele sai pela manhã com um grupo de colegas e percorre longas distâncias em um ritmo confortável, aproveitando para conversar durante o percurso.
O caso de López chamou a atenção de pesquisadores da Universidade de Castela-La Mancha, que decidiram estudá-lo profundamente. A descoberta foi surpreendente: sua idade metabólica – a idade do seu organismo medida pela quantidade de energia que o corpo gasta em repouso – equivale à de uma pessoa na casa dos 20 anos. "O que os músculos de Juan têm, principalmente, é que são muito eficientes em nível cardiorrespiratório, em termos de uso de oxigênio para produzir força", explica o médico Julián Alcázar.
Da mecânica às pistas de corrida
O fato de López ter começado a correr apenas aos 66 anos não significa que ele era sedentário antes disso. Ele teve uma carreira de sucesso como mecânico de automóveis, montando sua própria oficina e até construindo um carro de corrida na casa dos 60 anos para participar do autocross de Castela-La Mancha. Alcázar acredita que esse estilo de vida ativo, com um trabalho que o mantinha em constante movimento, foi fundamental para sua saúde. "Se, em vez de se dedicar à mecânica, Juan tivesse um trabalho de escritório, passando muitas horas sentado, estaríamos falando de outros problemas de saúde hoje", avalia o médico.
Após se aposentar, López decidiu abandonar os automóveis e buscar novas formas de entretenimento. Foi então que cumpriu uma promessa antiga feita a um primo: percorrer o Caminho de Santiago. Ao ver o tempo que seu pai dedicava às caminhadas, uma de suas filhas sugeriu que ele começasse a correr para ser mais eficiente. Aos 66 anos, ele enfrentou dificuldades iniciais – "comecei, passava um minuto e não aguentava" – mas persistiu com o incentivo da filha.
Recordes mundiais e treinamento sustentável
Conectando-se a um grupo de fundistas de Toledo, López começou a treinar regularmente e logo surpreendeu seus colegas com sua forma física. Incentivado a competir, ele iniciou sua carreira atlética aos 70 anos e desde então acumula conquistas impressionantes. Em 2025, ele estabeleceu um recorde mundial na categoria de 50 km para maiores de 80 anos, completando a prova em 4:47:39 – quase 49 minutos mais rápido que a marca anterior.
Alcázar explica que o sucesso de López vem principalmente da capacidade extraordinária de seus músculos de utilizar oxigênio. "A capacidade de Juan é acima do normal e equivale à de uma pessoa treinada para usar oxigênio e gorduras, o que é fundamental para corridas de ultralonga distância", destaca o médico.
Conselhos para uma vida longa e ativa
Com a saúde da esposa exigindo mais atenção, López reduziu o número de competições, mas mantém um treinamento rigoroso. "Não gosto da palavra 'velho' porque velho é algo que não serve mais", diz ele, sorrindo. "E ainda me sinto capaz de fazer muito. Uma das coisas que estou conseguindo é ajudar minha mulher, que depende de mim. Se ela se sentar ou cair, posso levantá-la perfeitamente e devo isso ao esporte que pratico."
Para Alcázar, o segredo do exercício é poder mantê-lo de forma sustentada ao longo do tempo. "O melhor programa de treinamento possível não serve para nada se não for realizado", enfatiza. López concorda e aconselha: "Praticar esporte ou atletismo é muito bom na nossa idade, mas com o cronômetro já não é tão bom. Se você fizer este exercício para manutenção, é muito mais saudável."
Quanto à motivação para correr longas distâncias, López compartilha sua técnica: "Quando faço essas corridas longas, divido-as em 11 partes e vou dedicando cada fração desse tempo a um membro da minha família. Assim, fica mais fácil. Mantenho a mente entretida em tudo isso e acredito que seja um bom sistema entreter a cabeça em algo que não seja o esforço."
Os pesquisadores que estudam López há três anos consideram seu caso uma fonte inestimável de informações sobre o bom envelhecimento. "O que ele nos faz é ajudar a entender melhor os efeitos do exercício nessa idade e o que ainda se pode conseguir", afirma Alcázar. López, por sua vez, não se preocupa com limites: "Você pode ter a capacidade física que for, mas se ficar sentado no sofá, nunca irá desenvolvê-las. E me sinto muito satisfeito porque, não fosse pelo esporte, eu não estaria nas condições que tenho agora."



