Há dois meses, o gabinete mais cobiçado do Palácio Guanabara, sede do governo do Rio de Janeiro, é ocupado por uma figura alheia ao mundo político. O desembargador Ricardo Couto, de 61 anos, presidente do Tribunal de Justiça, nunca disputou eleições nem subiu em palanques, mas acabou se instalando na cadeira de governador devido a uma confluência de fatores sem precedentes, mesmo para os padrões confusos fluminenses: a vacância do cargo em três postos da linha sucessória.
Sucessão turbulenta
De olho nas eleições de outubro, o grupo do então governador Cláudio Castro (PL) promoveu mudanças que turvaram o cenário. Antes de se desincompatibilizar, em abril, Castro já havia alocado seu vice, Thiago Pampolha, no Tribunal de Contas do Estado, abrindo caminho para Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), que acabou afastado e preso sob suspeita de corrupção e envolvimento com o crime organizado. Quarto na linha sucessória, Couto assumiu com a expectativa de passar o cargo adiante rapidamente, sem sequer "assinar a liberação de cafezinho", segundo relatos de quem acompanhou seus primeiros dias.
No entanto, o xadrez judicial em curso sugere que a pendenga sobre a sucessão de Castro ficará indefinida nos próximos meses, mantendo o interino no Palácio Guanabara, onde parece estar tomando gosto pela caneta. Sem experiência no Executivo, Couto abraçou como bandeiras o corte de gastos e a "moralização" da administração, promovendo uma limpeza nos diversos escaninhos do poder.
Faxina no governo
O governador interino já demitiu ou removeu de função 2.538 servidores e funcionários, dos quais sete secretários, a maioria instalada por indicação política. Em seus lugares, nomeou pessoas do círculo jurídico, principalmente da Procuradoria-Geral do Estado, rendendo à brevíssima gestão o apelido de "República dos Procuradores", repetido ironicamente por velhos caciques da oligarquia carioca. "Se fosse um de nós fazendo isso, cairia mais rápido que Wilson Witzel", avalia um ex-secretário de Castro, em referência a outro ex-juiz que, neófito no jogo eleitoral, conquistou o governo em 2018, mas terminou sofrendo impeachment.
O esperado descontentamento dos que foram postos para fora do palácio não parece ecoar a boa vontade que a população começa a demonstrar em relação ao governador acidental, já externada nas redes sociais. A permanência de Couto no cargo é resultado direto de um impasse no Poder Judiciário, sem perspectiva de resolução rápida.
Impasse judicial
Ações em tramitação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e no Supremo Tribunal Federal (STF) irão determinar se haverá nova eleição no Rio e se ela será direta ou indireta. Ainda repousa na mesa dos magistrados a decisão sobre o destino de Douglas Ruas, novo presidente da Alerj e pré-candidato ao governo pelo PL, que, estando na linha sucessória, reivindica ocupar o Palácio Guanabara antes do pleito de outubro para se fazer conhecido com a máquina do Estado em mãos.
Tecnicamente, tudo aguarda o julgamento de recursos no processo movido contra Cláudio Castro no TSE, que o tornou inelegível por oito anos. Segundo relatos de integrantes das duas altas cortes, a perspectiva é manter o litígio que divide o STF em banho-maria. Quatro ministros do Supremo já se manifestaram a favor da realização de um pleito suplementar, mas a Justiça Eleitoral teria de organizar a votação às pressas, até o apertado prazo-limite de 21 de junho, considerado impossível de ser cumprido.
Reações e movimentações
Enquanto Couto esquenta a cadeira, as peças se movem no tabuleiro fluminense. A coalizão de direita aglutinada em torno de Ruas não esconde a contrariedade em relação às intervenções do desembargador, cujos efeitos são mais simbólicos do que fiscais — prevê-se para este ano um déficit de 19 bilhões de reais no caixa. O juiz apontou sua tesoura para as autarquias mais críticas, como Rioprevidência, o fundo de pensão dos servidores, e a Cedae, a companhia de abastecimento de água carioca, ambas enredadas no escândalo do Banco Master.
Também reconduziu dois ex-titulares de Castro, um à Secretaria de Fazenda, outro à Procuradoria-Geral do Estado, que haviam sido exonerados por baterem de frente com a antiga gestão no caso de um esquema de fraudes de combustível investigado pela Polícia Federal — o ex-governador, inclusive, sofreu buscas e apreensão em sua casa na semana passada, no âmbito da mesma apuração. Já no campo da segurança pública, Couto retirou das mãos de políticos os estratégicos programas de remoção de barricadas e de reforço ao policiamento ostensivo, devolvendo-os à Polícia Militar, agora chefiada por um nome de sua confiança. "Passamos a falar a mesma língua", diz um integrante do alto escalão da área.
O jogo político
O imbróglio no Rio naturalmente mobiliza os principais postulantes ao governo. A turma do ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) não se incomoda com o impasse, já que não teria nada a ganhar com a eleição antecipada, muito menos com Ruas como interino. "O desembargador foi um presente do céu", resume Washington Reis (MDB), aliado de Paes e responsável pela indicação da irmã, Jana Reis, para a posição de vice na chapa do ex-prefeito. Mais interessado em uma solução, Ruas se movimenta para destravar em Brasília o imbróglio no STF, que vem sendo tratado pela bancada fluminense de seu partido no Congresso como "mais uma interferência indevida do Judiciário". Em um giro pelos corredores do Senado, o presidente da Alerj obteve até promessa de ajuda de Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), presidente da casa, por ora sem nenhum resultado prático.
Longe do cargo que a esta altura imaginava ocupar, o deputado faz o que pode na busca de atrair holofotes na Assembleia — criou uma comissão especial para "promover o equilíbrio fiscal" do estado e se arvora contra o projeto de redistribuição nacional dos royalties do petróleo. Ao improvável inquilino do palácio, só resta mesmo varrer uma casa que ninguém sabe ainda quem irá ocupar nos próximos quatro anos. A ver no que vai dar. No Rio, o único consenso é a incerteza.



