A Virada Cultural 2026 começou neste sábado (23) em São Paulo, reunindo 1,2 mil atrações em 22 palcos espalhados pelo Centro e periferias. Pouco depois da meia-noite de domingo (24), com garoa fina molhando o Vale do Anhangabaú, milhares de pessoas cantavam em coro músicas em espanhol diante do palco principal. Apesar da previsão de chuva forte e frio intenso, o público chegou preparado: guarda-chuvas, capas e filas em barracas de bebidas e churrasquinhos mantiveram as ruas ocupadas.
Público improvisa e curte programação variada
A chuva caiu em alguns momentos, mas sem a intensidade prevista, atraindo quem não planejava passar a madrugada no Centro. A professora Rosana Aparecida Freire contou que o passeio foi aleatório: o show que tinha ingresso no Parque Villa-Lobos foi cancelado, e ela acabou no Anhangabaú ouvindo Péricles e Luísa Sonza. Ao lado, o operador Leonardo Silva segurava a filha Tainá, de 7 anos, que queria ver a cantora. Lara Gabriele, de 9 anos, descreveu a experiência como descobrir uma nova cidade: “Aqui é legal, bonito. E eu posso dormir tarde”.
Cultura paraense domina a noite
Se no ano passado a cultura paraense esquentou o Anhangabaú, em 2026 ela se espalhou ainda mais. Em vários pontos, era possível ouvir sotaques, ver bandeiras do Pará e grupos comentando sobre Belém. Rose Costa Soares, que mora em São Paulo há três anos, levou a família para ver o Carabao e matar a saudade. Maria de Nazaré destacou melhorias: “Está mais organizado, tem mais banheiro e mais segurança”. O Carabao tocou tecnobrega melódico e “rock doido”, fazendo o público tremer. O pedreiro Jime Weverton saiu de Indaiatuba para o show: “Quando vi que Carabao vinha para São Paulo, não dava para perder”. Nazareno Alves, dono do Point do Açaí, veio de Belém com cuias de tacacá e açaí: “O Pará tem muita música, dança, gastronomia. Isso vai invadir outras capitais”. No Palco São João, Banda Fruto Sensual e Gaby Amarantos transformaram a avenida em pista de dança. Na Rua Aurora, um palco dedicado ao afrobeat reuniu estrangeiros e jovens sob chuva fina.
Show memorável de Manu Chao
No Vale do Anhangabaú, o principal momento foi o show de Manu Chao, por volta de 0h30. Debaixo de garoa, o público permaneceu espremido. Vestindo camiseta do Clandestinos, o cantor transformou a apresentação em coro político e latino-americano. Bandeiras da Palestina surgiram enquanto milhares gritavam palavras de ordem. O engenheiro Raul Miranda disse: “Foi um dos shows mais memoráveis. Ele puxou palavras anti-imperialistas, falou da América Latina, da Palestina. Não tem como desassociar música de política”. Com violão e percussão acústica, o show exigia esforço coletivo para sustentar os refrões. Em vários momentos, o cantor apontava o microfone para o público, que respondia em coro. O sistema de som, potente em Luísa Sonza, soou baixo em Manu Chao, virando piada: “Melhor show ruim da minha vida”, brincou um jovem.
Problemas de som e sinalização
Problemas apareceram em outros pontos. O palco do coletivo Deekapz ficou pequeno, e o som baixo gerou reclamações. Faltava orientação: pessoas caminhavam sem identificar em qual palco estavam ou onde começava a próxima atração, apesar de um mapa na Rua 24 de Maio. Durante a madrugada, não houve abordagens policiais ou confusões. A Secretaria da Segurança Pública ainda não divulgou balanço. A Prefeitura também não informou público ou atendimentos. Frequentadores notaram a ausência de pontos de hidratação no Vale do Anhangabaú, que no ano passado distribuíam água gratuitamente; este ano, o público dependia de ambulantes. Mesmo assim, a Virada atravessou a madrugada cheia.
A programação segue até a noite de domingo (24), com shows de Marina Sena, Seu Jorge, Alexandre Pires, Joelma e Thiaguinho em palcos espalhados pelo Centro e periferias da capital.



