As inundações causadas pelo El Niño de 2016-2017 no Peru afetaram 1,9 milhão de pessoas, mas a definição de quando ocorreu o último "super" El Niño ainda divide cientistas. Para alguns, o fenômeno mais recente desse porte foi o de 2015-2016, considerado o mais intenso da era moderna. Outros incluem o episódio de 2023-2024, que ficou próximo do limite para eventos extremos.
O que é um super El Niño?
O termo "super El Niño" não é uma categoria oficial única. Em geral, cientistas usam essa expressão para eventos muito acima da média, mas o limite exato varia conforme o critério adotado. A NOAA, agência de oceanos e atmosfera dos Estados Unidos, reconhece 2 °C como limiar informal para um El Niño "muito forte" ou "historicamente forte", enquanto 1,5 °C marca a categoria "forte". A medição é feita pelo Oceanic Niño Index (ONI), que monitora a temperatura da superfície do mar na região Niño-3.4 do Pacífico equatorial.
Os cinco super El Niños desde 1950
Pelo critério da NOAA, cinco super El Niños ocorreram em sete décadas, cada um com características próprias e desastres em larga escala:
- 1972-1973: pico de 2,1 °C. Secas na América Central, Sahel, Austrália, Brasil, Índia, Indonésia e União Soviética. Produção global de alimentos caiu pela primeira vez desde a Segunda Guerra. No Peru, a indústria pesqueira colapsou e milhões de aves marinhas morreram.
- 1982-1983: pico de 2,2 °C, com anomalias de até 4 °C perto da costa peruana. Durou quase dois anos, causando cerca de 2 mil mortes e centenas de milhares de deslocados. No Nordeste brasileiro, provocou uma das piores secas do século 20.
- 1997-1998: pico de 2,4 °C, o mais forte do século 20. Popularizou o termo "El Niño". Causou cerca de 23 mil mortes, segundo a ONU, e a morte de 16% dos recifes de coral do mundo. Surtos de cólera devastaram a África Oriental em 1998.
- 2015-2016: pico de 2,6 °C, o maior do registro moderno. Afetou mais de 60 milhões de pessoas, principalmente na África, América Latina, Caribe e Ásia-Pacífico. Na Amazônia, a seca e as queimadas mataram cerca de 2,5 bilhões de árvores.
- 2023-2024: pico de cerca de 2 °C, no limite da classificação muito forte. Levou a temperatura global a ultrapassar 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais. Provocou duas secas consecutivas na Amazônia e foi pano de fundo para as enchentes que mataram 181 pessoas no Rio Grande do Sul em 2024.
Intervalos diminuindo
Os intervalos entre esses eventos vêm se reduzindo: 10 anos entre 1972 e 1982, 15 anos entre 1982 e 1997, 18 anos entre 1997 e 2015, apenas 8 anos entre 2015 e 2023. Se o evento previsto para 2026-2027 se confirmar como muito forte, o intervalo será de apenas 3 anos. Embora a tendência seja estatisticamente frágil devido ao pequeno número de episódios, ela está alinhada com projeções climáticas de mais de uma década.
Previsões para 2026
A NOAA prevê um novo episódio forte ou muito forte até o fim de 2026, com 96% de probabilidade de persistir entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027. Projeções do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas (ECMWF) indicam valores próximos de 3 °C, acima do limiar para eventos muito fortes. No entanto, as projeções ainda têm grande incerteza: em maio, a probabilidade de aquecimento acima de 2 °C subiu para 37%, mas nenhuma categoria ultrapassa esse percentual.
O que esperar para o Brasil
O Cemaden avalia que, se um El Niño intenso se confirmar, os próximos meses podem repetir impactos de 2023-2024. No Norte e Nordeste, há tendência de redução de chuvas, aumento de temperatura e agravamento da seca. No Sul, maior propensão a chuvas intensas e persistentes, especialmente na primavera e verão. O Rio Grande do Sul aparece com o "sinal mais robusto" de aumento de risco hidrológico, com possibilidade de enchentes, inundações e deslizamentos. Santa Catarina e Paraná também têm potencial de eventos extremos de chuva. Além disso, um El Niño intenso pode aumentar ondas de calor e risco de incêndios florestais na Amazônia e no Pantanal. Os pesquisadores reforçam que a análise não é uma previsão determinística, mas deve orientar monitoramento e preparação.



